Eu Cinéfilo #32: O Silêncio do Céu

Eu Cinéfilo #32: O Silêncio do Céu

Até onde você chegaria se alguém que você ama, sua mãe, sua irmã, sua esposa, fosse estuprada? Ou melhor até onde você iria se visse esse ato de violência e não pudesse fazer nada? Essa é a pergunta que o filme de Marco Dutra O Silêncio do Céu tenta responder.

Com roteiro baseado no livro “Era el Cielo” de Sergio Bizio, o filme conta a história de Diana (Carolina Diekman) que sofre um estupro dentro de sua casa por dois indivíduos, enquanto seu marido Mario (Leonardo Sbaraglia) vê aquele crime sem conseguir fazer nada. A partir daí vemos como aquele crime afeta Diana, que não conta para seu marido o que houve, e Mario que não conta para Diana que viu o ocorrido.

Com um tema delicado e necessário, O Silêncio do Céu é um estudo de personagens e da própria vida, e das consequências de ficar em silêncio quando um crime desse acontece. Com narrações em off o filme nos dá uma ideia do que se passa na cabeça de uma vítima que não consegue falar, e também de seus entes queridos que sabem o que houve mas não sabem como tocar no assunto. Nesse ponto o filme lembra obras de Terrence Malick, onde temos personagens melancólicos em busca de um caminho, em busca de paz interior, e conhecemos seus medos suas dúvidas através de seus pensamentos ouvidos em off.

Além de Malick, o filme também lembra filmes de Michael Haneke pela abordagem nua e crua de um tema pesado, sem floreios, sem maquiagem. O filme é duro, cruel e real ao retratar o estupro e suas consequências. A cena inicial inclusive, que é a cena do estupro, é das mais incômodas e difíceis de se assistir que já vi. Embora não mostre praticamente nada do crime sendo cometido, as cenas mostradas e o som são incômodas. É impossível assistir a essa cena, que é mostrada duas vezes uma da visão de Diana e outra na de Mario, e ficar impassível.

Além de Malick e Haneke, é possível ver também a influência de Alfred Hitchcock. A forma que Marco Dutra constrói a tensão psicológica e densa é feita na medida certa principalmente com o uso silêncio, tantas vezes usada por Hitchcock, apenas com um olhar ele passar a tensão e os sentimentos dos personagens. Além do silêncio, o uso dos sons diegéticos lembra muito Hitchcock, sons que te fazem sentir que está na cena que faz parte daquela história. Marco Dutra consegue construir um clima de tensão sem ser exagerado. Na medida necessária para causar incômodo e te fazer pensar.

Embora com referências a Malick, Haneke e Hitchcok, Marco Dutra impõe o seu estilo, suas escolhas em como guiar a história são inteligentes, e enquanto pensamos que a história vai para um lado, ela vai para outro. Causando um impacto ainda maior no espectador. A forma como o filme foi montado e conduzido é um dos maiores êxitos do filme, que evita o clichê comum em filmes americanos.

Outro acerto do filme é a fotografia. O filme tem uma fotografia sóbria que se utiliza muito da escuridão para poder dar o tom a história e para situação psicológica dos personagens. Existem rimas visuais que nos fazem entender qual a daquele personagem, como eles se sentem. Em um das cenas mais belas do filme, por exemplo, vemos Diana na luz de um lado e Mario do outro lado na escuridão, mostrando como Mario a cada dia adentra cada vez mais na escuridão de seus atos, de seus pensamentos, de sua confusão, de seus medos. Enquanto Diana começa a engatinhar para se recuperar, mesmo que amparada por remédios.

Mas talvez o maior acerto do filme seja o elenco. Carolina Dieckman dá a Diana a medida certa de melancolia, tristeza, raiva, confusão, medo. Pelo olhar sabemos o que ela está sentindo. Principalmente na cena do estupro, o olhar dela mostra luta, medo, desespero, humilhação, tudo de uma forma que nunca se torna caricato ou irreal. Já Leonardo Sbaglia constrói um homem com medo, confuso, e cuja culpa a cada passo que dá aumenta e consome cada vez mais, a forma de falar, o olhar, ele simplesmente nos entrega um homem, um ser humano confuso, com medo e que não sabe o que fazer. O elenco coadjuvante também é ótimo. Chino Darín que faz Nestor conseguiu construir um personagem confuso, paranóico, que só pelo olhar você consegue notar que ele tem algum trauma, algum problema mau resolvido. Mirella Pascual que faz Malena, a mãe de Nestor, construiu uma personagem que te faz sentir compaixão por ela, que faz você temer por ela, mas ao mesmo tempo causa desconfiança, faz com que você imagine que ela sabe mais do que realmente parece, que está escondendo algo ou protegendo alguém.

Talvez a única coisa que tenha me incomodado um pouco no filme é o fato de ter focado muito nas consequências sobre Mario e até onde ele vai depois do crime cometido contra sua esposa, e em como isso o afeta. Gostaria de ter visto mais de Diana, da luta dela para lidar com o trauma, talvez explorar um pouco mais seu medo, sua confusão, ver um pouco mais como o crime cometido contra ela a afetou. Confesso que a princípio até queria que fosse explorado pelo roteiro o motivo do silêncio dela, mas após refletir e conversar com amigas sobre o filme, percebi que, princialmente após a revelação no 3º ato do filme, o silêncio está implícito, vergonha, medo, insegurança, tudo isso leva Diana e se calar.

O Silêncio do Céu é sem dúvida nenhuma um filme pesado, denso e acima de tudo necessário, principalmente em um país onde a cultura do estupro culpa a mulher por ser estuprada, e onde a Lei Maria da Penha funciona só no papel. Onde a violência contra mulher é algo por vezes normal. Marco Dutra conta uma história que poderia ser de qualquer um, do seu vizinho, do seu colega de trabalho, do seu amigo, ou até mesmo sua. O filme abre uma discussão que deveria ser mais vezes abordada. O que leva uma mulher a se calar? Até que ponto chegaríamos se sofrêssemos com esse crime? Até quando uma mulher aguenta sofrer sozinha? Até onde uma mulher chegaria ao ser estuprada? Até que ponto sua vida seria afetada? Esse é o papel do cinema criar discussões que nos ajudam a lhe dar com situações como essa, que nos fazem pensar. O Silêncio do Céu faz isso levanta a questão. Só de trazer essa questão a tona já valeria a pena assistir ao filme. Junte isso a um roteiro bem amarrado, atuações de peso, parte técnica impecável e temos um dos melhores filmes nacionais dos últimos anos.

Atenção: Se você foi ou conhece alguém que foi estuprada ou sofreu qualquer tipo de abuso seja físico, moral ou psicológico. Não fique em silêncio. DENUNCIE. Procure ajuda. Não sofra sozinha(o). Existem pessoas preparadas e qualificadas para te ajudar. DENUNCIE. Procure ajuda, por mais difícil que seja, por mais humilhante que seja, ninguém merece levar esse fardo, esse peso sozinho. DENUNCIE. Procure ajuda! Não sofra sozinho!

 

Ligue 180 ou vá até uma Delegacia da Mulher mais próxima. Não fique em Silêncio. Deixe sua voz ser ouvida!

 

E o principal, lembre-se: VOCÊ NÃO TEM CULPA DE NADA!

 

 

Texto escrito por: Davi Vilela, do blog Teletrivia.

Gostou? Dê um like e passe adiante!

Leia também:

Apoie o Cinem(ação): contribua com a cultura cinematografica!

  • Críticas cinematográficas
  • Mais de 6 horas de conteúdo inédito por semana
  • Podcasts semanais
  • Grupo no Facebook exclusivo para apoiadores
  • Acompanhamento das nossas conquistas com seu apoio

Abra a porta do armário! Deixe seu comentário:

  • Cauê Petito

    Um dos melhores filmes do ano passado. A primeira cena – uma aula de cinema – é excelente: plano detalhe de uma faca, uma mão sobre um pescoço, alguém se debatendo, o grito desesperado de Diana. Adotando essa abordagem quase sensorial, onde as sensações instaladas na personagem de Dieckman como sufocamento e desorientação (tudo auxiliado pelo premiado desenho de som) são repassadas para nós, essa cena fica conosco até o derradeiro fim, quando os “papeis se invertem” e tudo o que resta, novamente, é o silêncio. A saída da sessão deste filme foi ironicamente poética: um silêncio coletivo e abatido de processamento daquela situação, daqueles temas, influências, daquele final perverso instaurado pelo diretor Marco Dutra.
    E o que falar das atuações de Sbaraglia e Dieckmann? Se o diretor é bem literal em contrapor as reações de Mario (explosivo e ansioso) e Diana (passiva, melancólica) ao lidar com esta situação, estas reações soam realmente autênticas, com destaque para a sempre subestimada DIeckman, que assim como em Entre Nós (outro ótimo filme e muito importante pra mim pessoalmente), oferece uma interpretação contida, de uma angústia imensa refletida no olhar triste que fala mais do que qualquer grito ou explosão emotiva.

    Enfim, ótimo texto Dani. Puta filme.

  • Cauê Petito

    Ah, só mais uma coisa: Nesse lance de influências, creio que tenha muito de Argento também, principalmente nos últimos 30 minutos, com aquele vermelho. E sobre os pontos de vista, acredito que a escolha de retratar a impotência dele diante de tudo o que aconteceu seja interessante não só do ponto moral mas também do narrativo (que é onde o “twist” de ele saber que ela foi abusada e não revelar realmente se torna um jogo). Essa inversão de papeis ocorre várias vezes na história pra ter, de novo, essa última e genial inversão de papeis entre eles. Enfim, acho que é isso mano

  • Davi S. Vilela

    Bom dia Cauê,

    Agradeço seus comentários.

    Que bom que gostou do Texto e excelente suas análises.

    Espero escrever novos textos para o site.

    Abraço!