Crítica | Transformers: O Último Cavaleiro

Crítica | Transformers: O Último Cavaleiro

Um pornô de robôs

Ficha técnica:

Direção: Michael Bay
Roteiro: Art Marcum, Matt Holloway, Ken Nolan
Elenco:  Mark Wahlberg, Sir Anthony Hopkins, Laura Haddock, Isabela Moner, Jerrod Carmichael, Josh Duhamel, Stanley Tucci
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2017 (20 de julho de 2017 no Brasil)

Sinopse: O gigante Optimus Prime embarcou em uma das missões mais difíceis de sua vida: encontrar, no espaço sideral, os Quintessons, seres que possivelmente são os responsáveis pela criação da raça Transformers. O problema é que, enquanto isso, seus amigos estão precisando de muita ajuda na Terra, já que uma nova ameaça alienígena resolveu destruir toda a humanidade.

Comparar Transformers: O Último Cavaleiro com um filme pornô não seria exatamente um exagero. A “ação” que ocorre em tela, é mecânica, operando no automático. Os personagens são unidimensionais e compostos de estereótipos. A trilha sonora genérica e característica também está presente.  Todos os carros, todas as mulheres, todos os soldados, filmados de forma explorativa – cada um à sua maneira, como se até aqueles modelos de pessoas estivessem à venda.  É tudo filmado de forma bem explícita, beirando ao fetiche, enquanto os prédios caem e os carros entram em cena como num comercial. É um legítimo Robot Porn.  E todas as explosões, toda a destruição megalomaníaca, todos os product placements sem sentido encontram um lugar nesta… coisa descontrolada que Michael Bay traz mais uma vez às telas.

Na trama, os humanos e os Transformers estão em guerra e Optimus Prime se foi. A chave para o nosso futuro está enterrada nos segredos do passado, na história oculta dos autobots na Terra. Durante esse caos, a salvação de nosso planeta recai sobre uma aliança improvável: Cade Yeager (Mark Wahlberg), Bumblebee, um lorde inglês (Sir Anthony Hopkins) e uma professora da Universidade de Oxford (Laura Haddock). Eles terão que unir forças para encarar uma batalha onde somente um mundo sobreviverá: o dos Transformers ou o nosso. Enquanto o quarteto sai à frente da batalha, novos personagens aliados os darão suporte, como a órfã Izabella (Isabela Moner).

Last Knight

Optimus Prime retorna em “Transformers: O Último Cavaleiro”

Como o próprio Bay disse recentemente em sua visita ao Brasil, os filmes da franquia Transformers são, realmente, bizarros. Após um primeiro filme competente e com bons momentos “spielberguianos”, pode-se dizer que as sequências perderam seu caminho, com extrapolações de todos os vícios de seu diretor: explosões, enaltecimento do exército americano, estereótipos racistas e piadas de tom duvidoso. Uma recuperação da “boa forma” foi até visto no terceiro filme, mas, ainda assim, havia muito a ser melhorado. Se este capítulo, que é supostamente o último de Michael Bay na direção, acerta em alguns pontos, ele infelizmente se rende a muitos dos velhos problemas já mencionados.

Não que haja problema nas pretensões de Bay. Ele busca o escapismo, a diversão descompromissada – o espetáculo – no fim das contas. E chega a funcionar, no próprio prólogo do filme, em que somos introduzidos à uma batalha medieval na qual encontram-se figuras como o rei Arthur e o mago Merlin vivido por Stanley Tucci (sempre divertido). Quando um dragão de três cabeças invade a tela, nem questionamos o absurdo da situação, que é embalada com uma narração do sir Anthony Hopkins que atribui, no mínimo, um pingo de charme à tudo aquilo. Quando a sequência inicial acaba, somos apresentados aos personagens humanos, e é aí que os velhos problemas de sempre começam.

Se Mark Wahlberg parece mais à vontade como Cade Yeager (e a canastrice de seu personagem funcione parcialmente), a professora Vivian de Laura Haddock é – como se espera de uma mulher num filme de Michael Bay – apenas o interesse amoroso que dirige carros bonitos, veste roupas extremamente apertadas e usa óculos apenas por que “ei, eu posso ser inteligente também!”. O roteiro de Art Marcum, Matt Holloway e Ken Nolan tenta atribuir algum peso narrativo para a personagem, mas tudo parece muito forçado. Por outro lado, o papel de “mulher forte” fica claramente para a jovem Isabela Moner, que é esforçada, mas tem sua personagem abandonada pelo roteiro em certos momentos ao ponto em que esquecemos da presença da mesma no filme, e isto obviamente não é bom.

Por falar em Moner, a inclusão de sua personagem esclarece muito sobre o tipo e filme que Michael Bay quer fazer, e não me refiro ao momento -mais do que necessário – de empoderamento feminino (que soa artificial aqui, de qualquer forma), e sim ao “momento de mercado”. A inclusão da menina e seu grupo de amigos jovens é claramente inspirada na série Stranger Things, da Netflix. O que não seria um problema se estes fossem inseridos organicamente na narrativa, e não abandonados sem maiores explicações. É como se Bay e seus roteiristas tivessem feito aquelas pesquisas do que está “em alta” atualmente, e decidido incluir estrategicamente todo tipo de “atração” para o filme, mesmo que não combinem entre si. De certa forma, é isso que Transformers: O Último Cavaleiro é: uma salada.

Isabela Moner e companhia

E esta salada é feita de várias formas. Salada de tons, de referências, de personagens, numa trama rocambolesca que envolve até robôs contra nazistas (e devo admitir que a parte de mim que já havia desistido do filme se cativou por uma produção daquelas grindhouses em que esse é o foco de um filme inteiro, um “Robots vs nazis”). Se a produção merece méritos por tentar, de alguma forma, amarrar os Transformers com referências históricas, é inegável que eles vão longe demais, associando os robôs à todo tipo de grande figura histórica possível (quando apareceram pinturas renascentistas com os robôs, devo dizer que não pude conter os risos).

Ainda assim, desse ponto de roteiro, surge o personagem mais divertido do longa: o Sir Edmund Burton de Hopkins. É como se o veterano estivesse encarando aquilo tudo da forma que realmente é: uma bobagem, e ver o ator surtando junto ao seu criado robô é uma mistura de deleite com vergonha alheia que funciona, e francamente, no momento em que o mesmo é atingido por uma explosão (é um filme de Michael Bay, afinal), e vemos seu dublê voar dando piruetas enquanto um planeta se une ao nosso no horizonte, percebemos que talvez Michael Bay seja o gênio máximo do caos organizado.

Transformers

Transformers: O Último Cavaleiro

As cenas de ação envolvendo os Transformers novamente são o ponto alto do filme, e os fãs da franquia devem ficar satisfeitos. No entanto, há alguns problemas. Se Michael Bay não é o cineasta mais eficiente em se tratando do domínio da linguagem, ele ao menos entende o 3D e preza pelo apuro técnico de seu filme, filmando, como habitual, várias cenas com câmeras IMAX feitas especialmente para este tipo de cinema. Porém, o filme é prejudicado pela sua problemática montagem. Na mesma cena, por exemplo, o aspecto de tela muda a cada corte, de formato IMAX para convencional, em cenas de diálogo. Na ação, chegou a desorientar ao invés de imergir. E como Bay filma todas as cenas como se fossem o clímax do filme, com a câmera sempre em movimento, não tarda para que as náuseas comecem a chegar.

Pecando também ao apostar numa certa auto paródia (como ao fazer piada com a trilha sonora grandiloquente composta por Steve Jablonsky apenas para abraça-la posteriormente) que nunca funciona, O Último Cavaleiro acumula absurdos um atrás do outro e vislumbra a diversão trash, mas  exausta seu público nas longas duas horas e meia de projeção.

Transformers

Mark Wahlberg como Cade Yeager em “Transformers: O Último Cavaleiro

O último Transformers dirigido por Michael Bay é mais uma vez um amálgama de tudo que se encontra na franquia, para o bem e para o mal. É um tipo de cinema realmente bizarro em sua essência, que é infantil e adulto ao mesmo tempo, que é acessível para todo mundo mas ao mesmo tempo pra ninguém. É uma experiência exaustiva como um brinquedo de parque de diversões, e é difícil até mesmo categorizá-la.

Ao final, como numa produção adulta, todos estão exaustos, inclusive a audiência. Um cara do meu lado estava com o óculos 3D nas mãos antes mesmo de o filme acabar, visivelmente abatido enquanto olhava para o vazio. A saída do cinema é curiosa: a maioria de cabeça baixa, sem muito contato visual, num silêncio meio envergonhado de quem tenta compreender exatamente o que viu. Bom ou ruim, é um filme de Michael Bay.


Michael Bay e Isabela Moner vêm ao Brasil

 

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