Soundtrack: o legado que deixaremos

Soundtrack: o legado que deixaremos

(pensamentos e questionamentos originados do filme Soundtrack)

 

A existência humana carrega em si um grande paradoxo: é grandiosa demais para ser descartada e esquecida, e pequena demais para ser significativa na imensidão do universo.

 

Tentamos deixar nossas pegadas na História de alguma forma, ainda que essas marcas sejam como botinas em um gelo que derrete a todo tempo. Mas tentamos, nos esforçamos e, assim como queremos acreditar em um Deus que nos vê e nos protege, também vivemos com a esperança de que esse legado ficará para além de nossa vida finita.

 

E não se trata de perpetuar o DNA em nossos descendentes. Os traços genéticos a serem continuados – e aleatoriamente misturados – não são tão valorizados quanto a contribuição científica, em muitos dos casos. E que outro tipo de propósito poderia nos levar a viver uma situação extrema?

A arte é onde podemos deixar um pouco do legado em que tanto nos apoiamos. No meu caso, minha arte são as palavras que destilo em meus textos, como este que se fixa em forma de bytes no buraco sem fim de servidores conectados à rede mundial de computadores.

 

Nos outros casos, a arte pode ser um sem fim de coisas. Pode ser música, som, pesquisa. Pode ser pintura, desenho, transformação. A ciência – e o nome próprio de quem a fez, registrado em tinta “perene” nos livros que contam nossa História – pode ser a nossa forma de arte. Cada um escolhe o que pode tornar-se a sua pegada no deserto. É o que vai acrescentar ao nosso vazio. Esse vácuo que sempre tentamos preencher com o que encontramos, e que nunca parece completar: somos um saco sem fundo de entulhos socados que nunca completam o espaço oco que temos. Ser humano é preenchedor por natureza.

 

Mas no fim das contas, vivemos de fato em um grande vazio: uma imensidão branca de gelo. E estamos sós – quando abrimos nossos olhos pela primeira vez, respiramos e choramos sozinhos. Preenchemos a solidão durante a vida. E sozinhos, novamente, iremos embora.

 

E na paradoxal finitude do que deixamos, pode ser que tenham mais valor de legado as lágrimas daqueles com quem dividimos nossa existência, os sorrisos e os sentimentos daqueles que ficarão por algum tempo antes de também voltarem ao pó. Mesmo assim, é a vontade de deixar uma obra eterna que nos permite viver, e não apenas existir. E isso faz toda a diferença.

 

Gostou? Dê um like e passe adiante!

Leia também:

Apoie o Cinem(ação): contribua com a cultura cinematografica!

  • Críticas cinematográficas
  • Mais de 6 horas de conteúdo inédito por semana
  • Podcasts semanais
  • Grupo no Facebook exclusivo para apoiadores
  • Acompanhamento das nossas conquistas com seu apoio

Abra a porta do armário! Deixe seu comentário:

  • Bruno Sorc

    Eu posso estar exagerando (posso mesmo, tenho este direito haha), mas até agora é o filme do ano. Eu não sei explicar, mas este filme me tocou DEMAIS. A cada passagem com o peso da sutileza, ele me tomou completamente. Quando rola o áudio do Hitchcock, ou as músicas enquanto se contempla a Montanha… a emoção me dominou.
    Que filme. QUE FILME.
    E o gostinho de ser BR, de ser enfim do 300ml, e de ter alguém que eu amo tanto ver atuar como o Selton Mello… tudo da um gosto ainda melhor.

  • Lucas Albuquerque

    Top 1 eu não colocaria, mas entrou no meu top 10 com certeza…

  • Bruno Sorc

    Cara, eu vi até que bastante coisa este ano.
    E nada mexeu tanto comigo. Vi muito filme vazio, sei lá.
    Mas com certeza é um exagero de minha parte, mas muito bem direcionado.
    Vou reformular a frase para: ‘o filme que mais me tocou no ano’.

  • Lucas Albuquerque

    aqui a minha lista com os dez melhores filmes de 2017 (do primeiro semestre, logo Soundtrack não está): http://cinemacao.com/2017/07/02/top-10-melhores-filmes-de-2017-ate-agora/

    Mas eu o colocaria em 4 lugar aí…