OKJA (2017) | Qual o segredo do Cinema Sul-Coreano?

OKJA (2017) | Qual o segredo do Cinema Sul-Coreano?

Em anos recentes o cinema Sul-Coreano tem conquistado o público do mundo todo, inclusive da gigantesca NETFLIX que apostou alto com o filme OKJA (2017) que estreou no dia 28 de Junho com grande sucesso entre crítica e público. Um dos fatores é naturalmente a internet e a possibilidade de acesso à filmes que não chegam aos circuitos comerciais, e sim, estou falando da famigerada “locadora do Paulo Coelho”, “do primo que mora nos States”, ou simplesmente do “torrentão da massa”. Hoje as possibilidades de conhecermos outras culturas são infinitas e muitos tem se valido disso para conhecer um cinema muito além de Hollywood – e o cinema Sul-Coreano tem sido um dos maiores beneficiados dessas novas possibilidades.

Tanto o público quanto a crítica, seja ela internacional ou nacional tem aclamado os filmes produzidos na Coreia do Sul, que passou a receber visibilidade internacional a partir do filme de ação SHIRI – Missão Terrorista (Swiri, 1999) dirigido por Je-kyu Kang. SHIRI venceu o prêmio de melhor filme no prestigiado Asia-Pacific Film Festival em 1999 e se tornou um fenômeno local, ultrapassando o mundialmente famoso TITANIC (1999) de James Cameron nas bilheteiras Sul-Coreanas. Com o sucesso desse longa que chamou a atenção de cinéfilos do mundo inteiro, a Coreia do Sul entrou na mira de grandes estúdios internacionais, como a MIRAMAX e de vários veículos de comunicação que passaram a publicar críticas desse recém-descoberto cinema.

Após o sucesso de SHIRI, outros filmes, como a comédia romântica Ironias do Amor (Yeopgijeogin geunyeo, 2001) do diretor Jae-young Kwak e o filme de guerra A Irmandade da Guerra (Taegukgi hwinalrimyeo, 2004) de Je-kyu Kang conseguiram feitos ainda maiores, tendo sido vistos por mais de 10 milhões de pessoas no país, o que corresponde a 1/4 da população. Consegue imaginar isso? A cada quatro pessoas no país, uma (seja ela idosa, jovem, criança, com instrução ou não) viu o filme.

Então já identificamos um dos segredos para o sucesso do Cinema Sul Coreano – (1) PRESTÍGIO LOCAL. Naturalmente essa identificação dos sul-coreanos com o seu cinema é uma extensão do prestígio que eles tem para com sua cultura em geral. A música, a gastronomia, a literatura, e até a tecnologia tem valores locais muito altos. A partir de 1998 a Coreia do Sul passou a permitir a importação de itens importados como brinquedos, produtos eletrônicos, quadrinhos, CDs e DVDs, vindos do Japão, o que abriu os olhos do público (isso não foi uma piada) para uma cultura além da cultura pasteurizada norte-americana tão presente desde o inicio do século XX. Com isso, os sul-coreanos passaram a valorizar suas raízes orientais e ir deixando de lado as mesmices ocidentais.

OKJA é um exemplo perfeito desse abandono à cultura ocidental. No filme, uma multinacional norte americana do ramo alimentício cria uma espécie de super-porca geneticamente modificada. 10 dessas porcas são enviadas para diversos países do mundo todo onde recebem diferentes tratamentos como forma de um concurso, onde a porco que obter melhores resultados após 10 anos vence. Uma dessas porca é OKJA que recebe cuidados da jovem Mija, que não aceita que a empresa leve OKJA para os Estados Unidos travando uma batalha junto a outros ativistas para resgatar o animal.

 

OKJA é uma obra de opinião consciente, discurso potente e uma clara mensagem de denúncia.

 

O diretor Bong Joon Ho, assim como já fizera em 2013 com o filme EXPRESSO DO AMANHÃ (Snowpiecer, 2013) faz um filme de resistência, o que conversa muito bem com o próprio Cinema Sul-Coreano que resistiu às fortes influências ocidentais para fortalecer o seu cinema local. Isso traz muita confiança nos projetos ali produzidos. Um exemplo disso é o filme O LAMENTO (Goksung, 2016) que teve uma boa recepção aqui no Brasil, chegando a estrear em alguns salas comercias. O filme é um terror que mexe com o imaginário do público, resistindo a tendência do mercado por sustos baratos e uma história sem profundidade. O que o diretor  Na Hong-jin faz aqui é propor um estilo Sul-Coreano de contar uma história, e é aqui reside o segundo segredo (2) CONFIANÇA NO ESTILO.

 

O LAMENTO é um terror que mexe com o imaginário do público, resistindo a tendência do mercado por sustos baratos e uma história sem profundidade.

 

O cinema Sul-Coreano tem um estilo narrativo muito peculiar, que pode causar estranhamento no público não acostumado. Essa confiança faz com que seus filmes trabalhem sempre no limite do exagero. OKJA por exemplo anda no limite do humor histérico e caricato, como personagem excêntricos e nada convencionais, mas que na maioria das vezes funciona muito bem na história.

Pegue o exemplo do filme INVASÃO ZUMBI (Busanhaeng, 2016) que é um filme de zumbi, mas que foge no estilo ocidental de se contar história de gênero. Ainda que seja um filme um pouco mais comercial, sendo inclusive exibido em cinemas multiplex (pelo menos em São Paulo), o filme tem características muito presentes no Cinema Sul-coreano com muita dramaticidade, beirando o melodramático mas que consegue segurar bem as pontas. O humor também é muito característico nesse cinema, mesmo numa história violenta. É um humor que não se esconde atrás do pseudo “humor-inteligente” que alguns diretores querem que engulamos goela abaixo.

 

INVASÃO ZUMBI é um filme de zumbi, que foge no estilo ocidental de se contar história.

 

Essa mescla de humor, violência e dramaticidade dão ao Cinema Sul-Coreano uma assinatura que se destaca das produções que normalmente vemos nos cinemas comercias. Esses filmes não se prendem ao gênero tornando-se engessados. Longe disso, é um cinema rico em temática, que vai do terror a comédia romântica, do zumbi ao herói de guerra, sempre confiando na sua estética. Essa variedade temática tem feito com que esses filmes sejam mais acessíveis aos cinéfilos do mundo todo. OKJA, EXPRESSO DO AMANHÃ, INVASÃO ZUMBI são filmes que encontramos facilmente na NETFLIX, mas mesmo fora do streaming encontramos filmes Sul-Coreanos em exibições nos cinemas, e um caso recente foi o filme A CRIADA (Ah-ga-ssi, 2016) de Park Chan-Wook, que já havia conquistado cinéfilos do mundo todo com filmes como OLDBOY (2003), LADY VINGANÇA (2005) e SEDE DE SANGUE (2009). A CRIADA, estreou no Brasil em Janeiro de 2017, mas já havia passado em alguns Festivais, inclusive na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, onde eu o vi pela primeira vez. E é desse filme que tiramos o terceiro segredo (3) A CINEMATOGRAFIA. [Quer entender mais sobre o cinematografia?]

 

A CRIADA tem todos os elementos do cinema asiático: humor, dramaticidade, violência, uma cinematografia espetacular e acrescente a tudo isso um erotismo embriagante.

 

O Cinema Sul-Coreano é um dos cinemas mais belos do mundo. Eles tem um cuidado estético para com as imagens transformam-as em pinturas em movimentos. A CRIADA tem todos os elementos do cinema asiático: humor, dramaticidade, violência, uma cinematografia espetacular e acrescente a tudo isso um erotismo embriagante. É um filme que dificilmente você verá sendo feito numa industria que não confiasse plenamente na sua estética. Não à toa o filme é considerado por muitos, inclusive pelo Lucas Albuquerque aqui do Cinem(ação) que o colocou como melhor filme do primeiro semestre de 2017. Park Chan-Wook consegue nos envolver com uma história cheia de revira-voltas, uma mais surpreendente que a outra, no deixando positivamente perdidos no filme, mas mesmo assim nos deliciando com o suave jogo de câmeras que passeia pelos cenários meticulosamente arquitetados, ou mesmo em tomadas externas com um fotografia esfumaçada quase como se estivéssemos diante de um conto oriental sobre princesas.

E aqui voltamos para OKJA, que brinca com essa fotografia vivida, como se fosse um conto de fadas, mas sabe o momento certo de quebrar esse encanto e escurecer a fotografia, transformando o filme completamente.

Naturalmente o Cinema Sul-Coreano não tem apenas esses filmes como sinônimo de qualidade. Poderia citar vários, mas para concluir, listarei 10 filmes imperdíveis para você que quer conhecer um cinema diferente, prestigiado, confiante e muito bonito.

 

Primavera, Verão, Outono, Inverno e… Primavera (Bom yeoreum gaeul gyeoul geurigo bom, 2003) – Kim Ki-duk

Oldboy (2003) – Park Chan-wook

Casa Vazia (Bin-jip, 2004) –  Kim Ki-duk

Amor Proibido (Chunhyangdyun, 2000) –  Im Kwon-Taek

Zona de Risco (Gongdong gyeongbi guyeok JSA, 2000) –  Park Chan-wook

Memórias de um Assassino (Salinui chueok, 2003) – Bong Joon-ho

Mother: A Busca pela Verdade (Madeo, 2009) – Bong Joon-ho

Mr. Vingança (Boksuneun naui geot, 2002) – Park Chan-wook

Oasis (Oasiseu, 2002) – Lee Chang-dong

O Gosto da Vingança (Dalkomhan insaeng, 2005) – Kim Jee-woon

 

Se você não conhece nenhum dos filmes citados aqui, faça o exercício e veja pelo menos um deles. Depois comente aqui o que você achou. E se você gostar, tente ver o outros e compartilhe essa lista para que outros também conheçam esse cinema tão incrível.

Se quiser conhecer mais do meu trabalho, eu escrevo para blog ArteCines e semanalmente falo de cinema no meu Canal no Youtube

Um forte abraço e até a próxima.

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