“House Of Cards – Season 5”

“House Of Cards – Season 5”

Segundo Hannah Arendt,  o totalitarismo está ligado ao abalo do sistema de classes e à conseqüente atomização e individualização que caracterizam a moderna sociedade de massas, levando à falta de representatividade dos partidos do sistema liberal. A atomização dos indivíduos levou à perda dos pontos de referência de classe e dos laços sociais, e a conseqüente massificação da sociedade abriu espaço para os movimentos totalitários, que têm como pressuposto uma homogeneização uniforme da população através da liquidação dos laços e interesses comuns. A atomização social predispõe os indivíduos à união em torno de uma ideologia totalitária, que englobava todos, visto que não havia nada que se interpusesse entre os indivíduos e o ideal totalitário. Qualquer tipo de oposição ou crítica ao Estado e à ideologia dos governantes é reprimida e tida como traição. Em tais regimes, nada referente aos rumos tomados pelo líder máximo pode ser posto em juízo: a voz da argumentação e da crítica se encontram anuladas frente ao poder imediato da organização totalitária. A operação impessoal das forças econômicas produziu, em simultâneo, o declínio do homem público e a ascensão do “homem massa, cuja principal característica não é a brutalidade ou a rudeza, mas o seu isolamento e a sua falta de relações sociais normais”. (As Origens do Totalitarismo, p. 367)

A reflexão acerca da série House Of Cards além de ser considerada, numa escala de possibilidade – uma necessária discussão, visto que vivemos num século do abandono de um ideal maior em prol de uma melhor qualidade de vida para todos, isto é, como num conjunto, e em contra partida o que ocorre de fato, é a comunhão das forças que agem diante de nós, apenas, e somente apenas, que conversam entre si via medo e poder; também, diz respeito tanto ao modo como a política se dá no mundo real e o quanto de tudo o que vemos na série pode ser considerado ficção ou não. É disso que a série diz respeito: poder. A autora alemã trouxe muita discussão acerca desse tema quando escreveu sua obra As Origens do Totalitarismo publicada em 1951, e por tal razão, à trouxe aqui numa pequena escala para que viesse a contribuir com um pensamento mais reflexivo sobre o tema proposto.

O poder na verdade tem sido a ideia central de todas as temporadas da série aqui tratada. Desde o início vemos um diálogo contínuo entre o que o ser humano quer, pode ou deve ou não fazer diante de suas próprias escolhas. Muitos buscam poder para mandar, outros para estar acima de quem sempre os teve abaixo, e outros também, apenas desejam por desejar. Acredito que Frank Underwood vive nesse último e no primeiro círculo, ou seja, gosta de mandar e de mandar por mandar. O que vemos diante de nós, através das ações do presidente, é que o desejo político e o poder são tão ideais – no sentido de pertencerem a um lugar distante e penoso de ser conquistado – que quando atingido, não basta o fruto, o que se quer, é mais e mais. A obstinação daquele que consegue o que quer, ainda mais num patamar de alto nível – como tornar-se presidente dos EUA – chega a um determinado ponto de exaustão, qual seja: e depois? Ou seja, após tornar-se presidente, ser eleito consecutivamente, para onde ir? Existe algum lugar para onde ir? Tornar-se um cidadão “comum” novamente? Não vejo Frank aceitando isso.

Desde Sartre em sua obra O Existencialismo é um Humanismo até Schopenhauer em O Mundo como Vontade e Representação, o que temos de cerne como espelho dessa reflexão acerca do poder é a responsabilidade dos nossos atos. Somos responsáveis pelo que fazemos e somos o que fazemos, respectivamente. Tal visão pode ser avaliada e debatida, contudo o que assistimos em House Of Cards é semelhante a essas teorias. O “sistema é corrupto” – diz Frank numa de suas falas; e é. Não basta ser bom, não basta ter talento, não basta ter boa vontade, já que são ilusões vazias de sonhos que não se concretizarão, visto que é preciso jogar o jogo para pertencer ao jogo. E o mais belo é enxergar, através da série, um pouco sobre a natureza humana – sem levar em consideração a frase clássica de Hobbes que o homem seria o lobo do homem, à parte disso, nos momentos em que Frank fala diretamente com o público, conseguimos enxergar, quando ele quebra a quarta parede teatral, e comunica-se com os fãs da série e diz:

“Oh, don’t deny it, you loved it. You don’t actually need me to stand for anything (…) To be the stong man, the man of action. My god, you’re addicted to action and slogans. It doesn’t matter what I say, it doesn’t matter what I do, just as long as I’m doing something, you’re happy to be along for the ride, and frankly, I don’t blame you. With all the foolishness and indecision in your lives, why not a man like me? I don’t appologize. In the end I don’t care whether you love me or you hate me, just as long as I win. The deck is stacked. The rules as rigged. Welcome to the death of the age of reason. There is no right or wrong. Not anymore. There’s only being in and then being out.”

E após todo esse clamor de desesperança que Frank nos afirma pertencer ao nosso mais interior ser de nossas almas vazias, continuamos a clamar por sua vitória diante de seus oponentes. Entretanto, gradualmente, vamos cansando de assistir o mal levando a boa e o bom levando a pior. Desejamos que algo de ruim aconteça com Frank, desejamos que ele perca a eleição, desejamos que Claire Underwood tome o poder, que ela assuma a presidência e que seja a hora dela de mandar. E isso, em certa medida, é mudar algo? Ou seja, queremos mudanças, apenas pelas mudanças, queremos o novo, porque o que se permanece por muito tempo cansa. Será que vivemos, como Frank mesmo disse, numa era de morte da razão? de morte do certo e do errado? Está tudo tão feio, tão desrespeitoso a nossa volta. Vemos isso na série, vemos isso na política internacional, assistimos de camarote o reflexo dos Underwood’s em Brasília roubando, tendo privilégios nas prisões e continuando ricos com dinheiro público. Me pergunto se um dia isso vai acabar. Acho que não. Quem acredita que o sistema pode não ser corrupto ainda tem uma alma boa e ingênua. Cada vez mais que  nos aproximamos do saber, mais nos conhecemos e mais desconhecemos os outros. Quanto mais sabemos, menos queremos saber, só que a partir do momento que já sabemos, não tem mais volta.

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    Começar o texto com Hannah Arendt é uma ótima forma de dizer “eu sei do que eu to falando”… rs