Eu e o Cinema

Eu e o Cinema

Eu tinha cinco ou seis anos de idade quando tive meu primeiro contato com o cinema. Eu não entendia muito aqueles clássicos que passavam na TV, mas eu era fascinado por eles. Por problemas de adaptação, comecei a estudar aos sete anos, entrando na escola já sabendo ler e escrever, isto por conta das histórias em quadrinhos que eu lia em casa. De certo modo, o atraso na escola me facilitou e favoreceu em algumas coisas em relação às artes.

Como sempre fui muito tímido, passei grande parte de minha infância indo da escola para casa, de casa para a escola, dificilmente brincando na rua. O que eu gostava mesmo era de ficar em casa assistindo filmes e lendo HQs. Um dos clássicos que me encantavam era “O Pássaro Azul”, de 1940, onde Shirley Temple e Johnny Russell seguiam uma fantástica jornada em busca do pássaro do título.

Johnny Russell, Shirley Temple e Cecilia Loftus em “O Pássaro Azul” (1940)

 

Nessa época, meu pai tinha um álbum antigo de astros e estrelas, chamado “Ídolos da Tela”. Foi de meu pai que herdei o gosto pelo cinema, de ouvi-lo falar de suas antigas sessões e matinês, de como o cinema o encantava. E também, através daquele álbum e suas figurinhas com uma pequena biografia e filmografia dos atores e atrizes, eu comecei a ter uma maior admiração pelo cinema. Era uma época diferente de hoje, sem internet, sem filmes em DVD e Blu-ray, sem nada que facilitasse, apenas a boa vontade dos canais de TV da época em exibirem bons filmes, e disso não posso reclamar.

Se hoje em dia temos uma programação discutível em relação a filmes de qualidade, em minha época de criança os grandes clássicos eram exibidos à tarde e à noite, em grande variedade. Eu ia assistindo àquelas obras-primas e olhando se aqueles atores e atrizes tinham suas fotos no álbum, e também prestava atenção se era exibido algum filme com os atores e atrizes que eu já havia decorado os nomes no álbum.

Lembro que quando criança, assisti a um filme em que um marinheiro chamado Manuel caia no mar de forma trágica, mas passei anos sem saber o nome do filme, pois só tinha vagas lembranças dele. Anos depois fui saber que se tratava de “Marujo Intrépido” (1937), estrelado por Spencer Tracy. Outro filme que eu vi quando criança, mas não me lembrava o nome era “Loucuras de um Milionário” (1954), estrelado por Gregory Peck. Era uma comédia muita divertida, típica de sua época. “Virtude Selvagem” (1948), outro com Peck,  era um dos que eu mais gostava. Não pude assistir este último a cores, porque naquela época nossa TV era preto e branco.

Freddie Barthololomew e Spencer Tracy em “Marujo Intrépido” (1937)

Alguns outros clássicos exibidos em minha época foram “As Aventuras de Robin Hood” (1938), com Errol Flynn e Olivia de Havilland, “Bonequinha de Luxo” (1961), com a encantadora Audrey Hepburn, “Um Rapaz do Outro Mundo”, com Danny Kaye, “Os Brutos Também Amam” (1953), com Alan Ladd, Jean Arthur e Van Heflin, “Lágrimas do Céu” (1956), com Burt Lancaster e Katharine Hepburn, “A Dança dos Vampiros” (1967), de Roman Polanski e “Gigot” (1962), estrelado por Jackie Gleason e dirigido por Gene Kelly.

É indescritível a sensação que uma criança sente ao viver uma época em que obras clássicas eram exibidas todos os dias, sem essa urgência e vazio da TV dos dias de hoje.

Em 1983, tive minha maior e melhor experiência com o cinema, quando a Rede Globo exibiu pela primeira vez na TV, em duas partes, aquele que seria meu filme preferido de sempre, o incomparável “E o Vento Levou” (1939), com os inesquecíveis Clark Gable e Vivien Leigh. Foi uma experiência fantástica, daquelas que você carrega para sempre em sua vida. Dali em diante eu não tive mais dúvida que o cinema havia me conquistado.

Burt Lancaster e Katharine Hepburn em “Lágrimas do Céu” (1956)

Os anos foram passando, fui tendo contato com outras obras-primas, principalmente quando o ‘Supercine’ da Rede Globo exibiu todos os sábados uma série de clássicos que incluíam, além de “E o Vento Levou” (dessa vez inteiro), épicos como “Ben-Hur” de 1959 (imagine ver esse filme em uma TV pequena, quadrada, perdendo seu formato em widescreen, e sem cores. Mas eu não tinha do que reclamar), “O Poderoso Chefão” (1972), “Doutor Jivago” (1965), “Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas” (1967), “A Filha de Ryan” (1970), “Quo Vadis” (1951), “Spartacus” (1960), Cleópatra” (1963), entre outros. Sem dúvida foi a melhor época do cinema na TV brasileira.

Pouco antes de sair da infância e entrar na adolescência, entrei em um dos momentos mais complicados de minha vida. Foi quando começaram os bullyings. Fui muito perseguido em meu antigo bairro, despertando o ódio de muita gente por eu simplesmente gostar de ficar em casa. Isso fazia com que eles achassem que eu era metido, que não queria me misturar com os demais. Ruas não me cativavam, eu não via nada de proveitoso nas ruas, não via nada de edificante, não era meu meio. Isso provocou a ira dos incompreensíveis. Eu fiquei muito amargurado, porque era só sair de casa e eu já sabia que as humilhações e xingamentos começariam.

Robert Mitchum e Sarah Miles em “A Filha de Ryan” (1970)

No colégio, eu era vítima de piadinhas de alguns próprios colegas que viam em minha timidez um alvo fácil para eles. Mas a estes não facilitei tanto e comecei a reagir. Reagindo contra estes, reagi também contra aqueles de meu bairro. Ao sair daquele bairro, sacudi a poeira, deixando para trás apenas pouquíssimas pessoas que hoje posso dizer que sinto falta. As vejo quando posso. Nesta fase de tormentos, comecei a me aprofundar mais no cinema, enquanto lia bastante livros e HQs.

Foi uma época de bastante afinidade com a Sétima Arte, quando comecei a anotar os filmes que eu assistia, comecei a decorar os nomes dos atores e diretores, comecei a analisar melhor as produções, com olhos mais atentos. Também comecei a fazer associações com as datas dos filmes. Daí surgiu o momento em que comecei a ver o cinema também de forma analítica. Nesse período, nossa TV já era colorida, mas ainda dependíamos dos canais abertos para assistir filmes.

Mas os filmes já não eram mais clássicos (estes começaram a ser exibidos apenas depois da meia-noite). Mas ainda havia muita coisa boa pra se ver. Foi quando começou a ser exibido a sessão ‘Tela Quente’, cujo primeiro filme foi “Star Wars – Episódio VI – O Retorno de Jedi” (1983), e na semana seguinte “Os Caçadores da Arca Perdida” (1981). Foi uma época muito fértil para filmes na TV brasileira. Naquela época não haviam tantos programas vazios e novelas tomando conta de vários horários. Em outros canais como o SBT, também haviam bons filmes. Curiosamente, nessa época fui pouco ao cinema, tendo visto filmes como “Uma Cilada para Roger Rabbit” (1988), “Os Fantasmas se Divertem” (1988) e “Batman” (1989).

Bob Hoskins em “Uma CIlada para Roger Rabbit” (1988)

Em 1994, tive meus primeiros contatos com filmes em VHS. Um amigo de uma ex-cunhada tinha um vídeo cassete, e ele vez ou outra deixava o aparelho lá com ela. A gente fazia a festa. Ali, assisti o excelente “A Lista de Schindler” (1993) duas vezes, vi as fracas continuações de “Robocop”, vi o ótimo “Jurassic Park”. Em 1995, minha mãe comprou o nosso aparelho (que temos guardado até hoje). A partir daí, eu não parava de alugar filmes em videolocadoras. Toda semana eu e meus amigos íamos escolher dezenas de filmes e revezávamos, devolvendo nas segundas-feiras. Durante a semana eu estudava e trabalhava vendendo maçãs, nos fins de semana eu me esbaldava com os filmes.

Em 1998, minha mãe me deu de presente o VHS original de “Titanic“, no qual eu tenho até hoje. Nessa época eu colecionava a (hoje extinta) revista SET, sobre críticas, novidades e bastidores do cinema. Hoje, com um clique no computador ou celular você tem o mundo do cinema aos seus olhos. Mas as revistas de alguma forma eram melhores, sem tantas informações e spoilers que estragariam o prazer em ver um filme.

O tempo foi passando, trabalhei como cadastrador imobiliário aqui em minha cidade e também em Feira de Santana e Salvador. Foi a época em que comecei a ter contato com os DVDs. O primeiro filme que comprei nesse formato foi “Cyrano de Bergerac” (1990), estrelado por Gérard Depardieu, e o segundo foi o excepcional “Ran” (1985), de Akira Kurosawa. Em Salvador, comprei o DVD “E o Vento Levou” no shopping Piedade.

“Ran” (1985), do diretor Akira Kurosawa

Pouco depois, trabalhei como cartazista em um supermercado, meio que revivendo meus velhos tempos de desenhista de painéis de aniversário. Nessa época eu havia visto alguns dos principais filmes de todos os tempos, e procurava ver outros, sempre mais e mais.

O início de 2007 foi péssimo pra mim, porque foi quando tive uma grande perda em minha vida. Foi uma época em que fiquei muito arrasado, desanimado. A partir daí fui ficando cada vez mais imerso em lembranças, como se tivesse acionado em mim algum tipo de dispositivo que me inquietava. Minha mente não era mais a mesma, fui ficando cada vez mais memorialista, em muitos casos até mesmo de forma involuntária. Lembranças dos tempos em que eu sofria bullying começaram a me incomodar novamente. Nessa época, algumas pessoas que eu achava que eram meus amigos foram se afastando.

Nas redes sociais fui conhecendo novas pessoas que viraram amigos, sejam dos grupos de cinema e literatura, sejam de outros grupos ou simplesmente adicionando e sendo adicionado. Muitos deles são amigos até hoje. Começamos no Orkut e hoje estamos no Facebook. Nestas redes sociais e em blogs escrevi bastante coisa sobre cinema e literatura. Hoje continuo escrevendo no Face, em um blog e no site Cinem(ação).

Em 2009, ocorreu algo que até hoje acho engraçado, mesmo diante de circunstâncias pouco engraçadas. Durante um relacionamento, consegui trocar dois ingressos de cinema e pretendia levar a namorada para ver “Avatar”, de James Cameron. Mas ela invocou que queria ver a segunda parte da saga “Crepúsculo”. Claro que eu iria satisfazer a vontade dela, mas acabamos terminando o relacionamento antes de ir ao cinema. Acabei ficando com os dois ingressos, porque ela não quis. Então fui sozinho ver “Avatar”. Sobrou um ingresso, então o ofereci a um amigo, mas ele disse que estava desanimado pra ir ao cinema porque também havia acabado de passar por um fim de um relacionamento. Como o ingresso tinha um prazo, tive que resolver logo o que fazer. Então, na semana seguinte fui novamente assistir “Avatar”.

“Avatar” (2009), a maior bilheteria do cinema

Bebidas alcoólicas, novelas, futebol, festas, farras, essas coisas nunca me cativaram. O que sempre gostei de fazer foi assistir filmes, ler livros e HQs, escrever, desenhar, pintar, brincar com meus bichinhos de estimação, ficar com minha família, ir à igreja, em livrarias, lojas de filmes, bibliotecas, etc.

No curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, tive boas experiências, fiz bons amigos, aprendi novos conceitos na área. Para alguns ali eu era visto como alguém que conhecia cinema, para outros eu era alguém que só sabia sobre isso e nada mais. Alguns achavam que eu era vaidoso, mesmo que meu comportamento nunca demonstrasse que eu era alguém que queria me exibir. Não sei de onde tiravam essas definições a meu respeito. Quem me conhece a fundo sabe que sempre fui muito humilde, e eu sempre digo que tenho muito a aprender sobre cinema. Nunca me considerei bom em nada, estou apenas aprendendo.

Às vezes penso que eu deveria ter entrado na faculdade expressando pouco conhecimento sobre a Sétima Arte, pra ver se eu não atraia algumas inimizades. Mas esse tipo de situação não aconteceu apenas na faculdade, mas também em outros lugares e até mesmo em redes sociais.

Foi na faculdade que fiz alguns seminários, juntamente com outros colegas. Seminários do Oscar, de western (neste, tivemos apenas duas pessoas assistindo), sobre o diretor Alfred Hitchcock, seminário de terror. No Centro de Cultura daqui, eu e dois amigos exibimos e falamos depois sobre a animação “Akira” (1988), mas o lugar estava lotado de adolescentes que só queriam ver o concurso de cosplay que viria em seguida. A convite de um colégio, eu e alguns amigos da faculdade falamos em um seminário de gêneros do cinema. Falei sobre heróis e anti-heróis e também sobre o gênero terror. Pela faculdade, viajamos a Ouro Preto (MG), para uma Mostra de Cinema. Foi uma ótima experiência.

“Akira” (1988), a revolucionária animação japonesa

Fiz alguns poucos trabalhos de audiovisual, entre eles curtas, curta-documentário e uma animação com sequências de imagens paradas. O que eu sempre gostei de fazer nessas filmagens eram planos-sequências. Eram e é o que me fascina em filmagens.

Uma amiga me convidou pra ser o tema de seu mestrado de memória. Eu e meu pai fomos entrevistados. Quando o trabalho foi exibido na banca examinadora, colegas me paravam para me perguntar como eu fazia as associações de filmes e premiações do Oscar com datas, placas de carros, etc. Estas associações são processos de memorização que consistem em relacionar A a B, nada muito complicado.

Estamos na era dos filmes em alta definição, cinemas 3D, IMAX, Blu-rays, serviços de streaming. Hoje o cinema se ampliou em opções, mas ainda vejo uma carência de grande parte do público em conhecer um pouco mais sobre os filmes, conhecer os grandes clássicos, a história, a linguagem da Sétima Arte.

Hoje, quando me perguntam se o cinema perdeu sua essência, se ele perdeu suas qualidades, minha resposta é não. Temos muita coisa boa sendo lançada anualmente, muito bons filmes estão sendo exibidos e muitos ainda virão. O cinema continua indo bem. Claro que estamos cada vez mais caminhando ainda mais para um cinema de maior consumo, um cinema que pensa em grandes lucros e bilheterias astronômicas (isso se efetivou mais a partir de 1975, quando lançaram “Tubarão”, inaugurando os Blockbusters). Entretanto, muitos filmes de grande bilheteria não são meros passatempos, eles têm qualidade e não merecem ser menosprezados.

“Tubarão” (1975), o pai dos Blockbusters

O público de hoje assiste aos filmes contemporâneos que são exibidos na TV e nos cinemas. Eu, quando criança, assistia aos clássicos dos anos 20 aos anos 60. Às vezes em meus sonhos nas madrugadas, viajo por aquela época. Eu menino, em busca de novos conhecimentos, novas aventuras, novas histórias, seguindo por ruas, estradas e mundos incríveis que parecem retirados daqueles belos clássicos, revivendo aqueles bons e velhos tempos.

 

Imagem da capa: Sara Regina, a Saracema

 

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