“Collateral Beauty” – (2016)

“Collateral Beauty” – (2016)

Reflexão sobre o filme Collateral Beauty.

Vejo o mundo de formas diferentes após viver uma perda. Ela digere o que não deveria se perder na alma, mas perece mesmo assim. Significar alguma coisa para alguém é como pertencer, é como o amor. Perder o significado então, diz respeito ao sentido ou fruto daquilo que antes significava àquela coisa. Aprendemos com as perdas. Digerir a perda é como aceitar que é possível estar a beira de um sentimento de ausência, de solidão.  A vida na verdade nos rodeia, é e não é tudo isso que vivemos, mesmo porque vida e morte são sinônimos. Quando perdemos alguém é como se algo tivesse morrido na gente, mas dessa morte, vida surge, e por mais penoso que seja sentir essa vida “pós-morte”, ela se faz por necessária ao descaminho contínuo que o resto dos nossos dias nos proporciona. Perder alguém é ter diante de si o dilema do esquecimento e da lembrança, isto é, ou afastamos de nossas vidas o que aconteceu ou lembramos e lidamos com essas memórias de forma que elas vivam conosco até nossa morte. Seguir adiante e caminhar em busca de um esquecimento total de uma perda, de fato, não é tão fácil como parece, como também, talvez, impossível de acontecer. A morte pode até ser vista como uma forma de liberdade, já que a partir dela não se depende mais do outro; não há mais carência ou solidão como se tem no mundo. Contudo, por si só, essa visão de fora para um sentido ou significação desse caminho ao liberto, perde-se no redemoinho da própria vida, ou seja, há morte porque vida houve. É nesse pesar da dor que quem está de fora mas tão inserido no contexto emocional da morte, a sente por inteiro. Por isso que perder alguém pode ser tão sinônimo de morte da vida, quanto morte de amor, de carinho, de afeto. Os afetos sentem a perda. A memória, então, seria uma sensação do passado? E se isso tudo apenas cabe ao campo da ilusão? Acredito que quando deixamos as horas nos dizer sobre o tempo, percebemos que existimos. Tanto o tempo, o amor e a morte estão ao nosso redor todos os momentos de nossas vidas. O tempo pensado a partir dele mesmo seria antes de tudo necessário para que a percepção do ser humano quando vivendo nele, ou seja, no tempo, seja na verdade algo de elucidação e de objeto imagético da própria vida. O amor, por mais que nos traga o prazer de um beijo que nos aflora a pele,  por mais que faça de momentos únicos perenes no coração, também, nos traz dor. E a morte, em si, ausência de vida e livre de contentamentos mundanos, para quem a sente de fora, só provoca lágrimas, melancolia e uma saudade futura, que com o auxílio do tempo, vai desaparecendo mas nunca finda. Fernando Pessoa diz algo muito bonito, reflexivo sobre a vida: “Viver a vida em sonho e falso é sempre viver a vida. Abdicar é agir. Sonhar é confessar a necessidade de viver, substituindo a vida real pela vida irreal, e isso é uma confissão da inalienabilidade do querer viver.” (Livro do Desassossego). O devaneio contínuo do ser humano em busca da felicidade, então, permanece após um luto completo de tempo, vida e morte. A partir do instante pós morte, para quem a sente, silenciar em prol do pensar sobre o acontecido se dá por concreto. É como um silêncio completo da vontade, e este, segundo Schopenhauer, só é alcançado com segurança “se o objeto intuído não se situar no domínio das coisas que possam ter uma relação possível com a vontade, portanto que não sejam nada de efetivo, mas sua mera imagem.” (Metafísica do Belo) Difícil dizer que todos nós somos seres sonhadores e que vivemos por algo que desejamos na vida, mas no meu caso, o sonho está diretamente ligado ao que vivo e tento viver, e criar, seja de qualquer forma, também, compõe essa ativa intenção do sonhar, do querer, do desejar. Por mais angustiante que seja a vida, e por mais que a infelicidade esteja presente nela, conscientemente, temos que estar de mãos dadas com a felicidade, sermos amigos dela, mesmo porque quem dá vida ao momento feliz e de êxtase somos nós mesmos. Só depende da gente ser feliz com agente mesmo.

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    • Henrique Rizatto

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