#RochasEmDebate✊: Sidney Santiago – Um diamante politizado, empoderado e atuante.

#RochasEmDebate✊: Sidney Santiago – Um diamante politizado, empoderado e atuante.

Recentemente li uma matéria no blog do Miguel Arcanjo Prado, renomado jornalista de teatro do UOL, sobre um espetáculo teatral apresentado na 4ª MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). A peça em questão era “Branco: O Cheiro do Lírio e do Formol” e o título da crítica “Branco é um espetáculo racista confesso e sem remorso” (Link do texto: https://blogdoarcanjo.blogosfera.uol.com.br/2017/03/20/critica-branco-o-cheiro-do-lirio-e-do-formol-e-um-espetaculo-racista-confesso-e-sem-remorso/). Ao ler o título, achei, até meio que ingenuamente, que tratava-se de uma crítica positiva, e que os fortes predicados fossem resultado de um debate bem executado e condizente com ousadia da proposta dramatúrgica da obra em falar de um tema tão espinhoso. Ao continuar a leitura percebi que o espelho estava invertido. É um espetáculo teatral que se propõe a discutir as estruturas do racismo pelo discurso do opressor, sem a presença de nenhuma negra ou negro no elenco e na sua equipe (texto, direção e produção).

 

Como legitimar um debate sobre o racismo por um ponto de vista enviesado e limitado, e sem a participação da parte mais lesada?

 

Essa “terceirização” do debate em torno das questões raciais nas instâncias da nossa cultura, endossa uma representação viciosa e estereotipada histórica da mulher negra e do homem negro e faz escorrer pelo ralo a urgência no combate a essa colonização.
Contrariando a linha cênica duvidosa escolhida pelo texto de Alexandre Dal Farra e pela direção da diretora – e também atriz – Janaína Leite, em “Branco”, a Cia Os Crespos encabeçada pelo ator Sidney Santiago vai na contracorrente ao abordar a questão da escravidão, da relação intrínseca entre gênero e etnia e o empoderamento negro em sua luta diária contra o preconceito e o descaso político.

 

 

A primeira publicação de 2017 da sessão “Rochas em Debate” trás uma entrevista exclusiva com o ator, diretor e pesquisador cênico Sidney Santiago. Em fluxo contínuo entre a TV, o Teatro e o Cinema ele nos conta um pouco sobre seus processos criativos, seu trabalho de pesquisa cênica e faz uma análise da sua identidade e da realidade dos profissionais negros na cena audiovisual brasileira.

 

“Rochas em Debate✊” apresenta SIDNEY SANTIAGO:

 

1.) “Diamante”, protagonista homônimo do curta metragem é atleta, negro, gay e transformista. O quanto é simbólico e representativo pra você interpretar um personagem cheio de camadas dramatúrgicas e que trás em seu cabedal humano discussões importantes sobre questões étnicas, sociais e de gênero?

Este personagem veio de encontro a uma pesquisa que faço desde 2014, na cidade de São Paulo, sobre o impacto da Escravidão na afetividade de homens e mulheres negros. Esta pesquisa está vinculada a Cia Os Crespos (um coletivo Formado por atores negros, que se juntou no curso de artes dramáticas na EAD/ECA/USP desde 2005). Um dos pilares desta pesquisa foi particularizar e aprofundar os efeitos do racismo e da homofobia na psique e toda sociabilidade de homens negros gays, trans, bi e HSH na cidade de São Paulo. Quando fui convidado para fazer “Diamante”, o mais importante foi corporificar e dar vida a este jovem em um veículo tão caro como o Cinema. Precisamos levar em consideração que o Cinema Brasileiro, com raras execuções, ainda é um espaço de aniquilamento da diversidade constitutiva da população brasileira. Ter um protagonista negro, gay e distanciado de estereótipos é um avanço na seara da necessidade de representações e visibilidades positivas sobre negritude. É importante salientar que o jovem negro, ainda figura no imaginário nacional, recebe diariamente combustível para cristalização como um delinquente, um predador.

 

2.) Como foi o processo de gênese do personagem? Sua criação passou por alguma etapa de desconstrução de gêneros, estereótipos e conceitos da sociedade heteronormativa dominante em que somos educados a aceitar e reproduzir desde a infância, pra a partir daí construir o “Diamante” como mais organicidade e profundidade?

Normalmente os processos de cinema são parecidos, iniciamos com leitura de mesa, discussões e posteriormente ensaios. Confesso que o roteiro do Pedro Jorge, é algo muito genuíno e delicado. Com isso o ator necessita apenas ativar a escuta e se doar para o encontro com os outros atores. Se tratando de um curta metragem, os tempos são distintos, tudo é realizado em pouco mais de uma semana, todo este trabalho apontado como necessário, que é construir uma personagem marginal, e conferir a ela dignidade e verossimilhança, foram alçados na inscrição do roteiro.

 

3.) Na minha entrevista com o Pedro Jorge, o diretor do filme, (http://cinemacao.com/2016/12/22/rochasemcores%F0%9F%8C%88-no-debate-diamante-o-bailarina-por-pedro-jorge-cabron/) ele disse que “branco tem que saber trocar e que você e o João Acaiabe (Cezão, treinador do Diamante) foram peças fundamentais pra orientá-lo na direção do filme”. Como foi esse trabalho de construção coletiva que uniu as vivências de dois atores de gerações opostas, mas afetadas pelos mesmos demarcadores sociais, e pelo olhar do diretor cujo local de fala é díspar em relação ao de vocês?

João Acaiabe e eu, passamos pela mesma Escola, a EAD (Escola que existe há 69 anos), com isto o gesto proposto é parecido, João Acaiabe, antes de mais nada é um dos poucos atores negros em atividade desde os anos 70. Isto em um país racista é ato revolucionário! Contudo neste encontro com o Pedro, aconteceu algo muito raro que é o lugar de fala. Quando adentramos um ambiente que não dominamos precisamos estabelecer diálogos. Boa parte do Cinema Brasileiro foi elaborado nesta dicotomia, homens brancos versam sobre todos os assuntos, pintam todas as paisagens e desta equação surgem os estereótipos, as apropriações indevidas e o audiovisual torna isso, ferramenta de destituição. Este encontro com o Pedro, mostra que é possível criamos juntos, levando sempre em consideração o outro.

 

Sidney Santiago e Pedro Jorge (diretor do curta metragem “Diamante”).

 

4.) Além de “Diamante, O Bailarina” você protagonizou o longa metragem “Mundo deserto de almas negras” do cineasta Ruy Veridiano. Qual a importância do cinema brasileiro – pra própria produção nacional e pra (re)construção de uma identidade – sair da confortável de neutralidade e posicionar-se com sustança e poder na representatividade das negras e dos negros nas telas e da ocupação de atrizes negras e atores negros em papeis significativos, não subservientes e dorsais pra narrativas das obras?

Pensar em Cinema Brasileiro é algo complexo. Precisamos refletir quem ocupa os bancos das universidades públicas (nos cursos de audiovisual), qual a importância do cinema brasileiro em um mundo globalizado, com cinemas de shopping no país reproduzindo em larga escala uma pífia produção estadunidense e comédias nacionais televisivas, precisamos entender porque mais de 70% da verba para as produções ficam retidos em estados do sul e sudeste, e sobretudo é necessário ter discussão racial e implementação de políticas de ações afirmativas no audiovisual. Com estes questionamentos, políticas públicas e um milagre de ordem espiritual poderíamos vislumbrar um horizonte possível. Por hora, vamos continuar testemunhando uma produção cinematográfica estrangeira, um espelho infiel a exemplos de filmes como: “Garrincha – Estrela Solitária” (2003) de Milton Alencar e “Mais Forte que o mundo – A História de José Aldo” (2016) de Afonso Poyart, filmes onde seus protagonistas foram interpretados por homens brancos.

 

5.) Na TV, você foi visto recentemente em “Escrava Mãe” (RecordTV) com o personagem “Sapião”. Seu personagem era um escravo que vira lacaio (livre que acompanha a sinhá ou o sinhô) e depois volta a condição de escravo, da qual na verdade nunca saíra. Grande parte do elenco da novela, incluindo a protagonista Gabriela Moreyra e Zezé Motta, que narra lindamente a saga da progenitora da Escrava Isaura, é composta por atrizes e atores negros. Como você analisa a história de representação – ou a falta dela – das negras e dos negros na TV desde sua origem até os dias atuais?

A Telenovela ainda é hoje a luz do século 21, o nosso carro chefe cultural, mesmo sendo entretenimento. O que está posto na novela é simples: O drama do Senhor, do homem de posses da terra, conforme desenvolve o sociólogo Matheus Gato de Jesus. O folhetim narra e versa este drama branco seja no campo ou na cidade. Existe uma redoma de classe, e nela o negro, não tem espaço. Ele enquanto elemento simbólico vai continuar figurando alegoricamente, e nesta alegoria nasceram e se proliferam todos os estereótipos que ainda circulam e nos contaminam. Para mim não é um problema de escalação de elenco é de outra ordem. É preciso rever o formato, e criar novas mentalidades para a teledramaturgia brasileira. Para mim tem algo de muito cruel nesta equação chamada novela: milhares pessoas, sobretudo mulheres negras, mestiças, morenas e tantas outras ainda vivem o aprisionamento de acompanhar a telenovela e não conseguirem se enxergar, ao passo que a heroína branca é um norte existencial a ser atingido, isto é ideológico, cruel e desumano. Mas no interín, nestes mais de 50 anos, muitos atores negros , negras e mestiços confortaram nossas almas e nos deram segundos de alegria com Zézé Motta, Grande Otelo, Norton Nascimento, e tantos outros anônimos.

 

6.) Além dos distintos trabalhos na TV e no Cinema, o Teatro também é parte pulsante da sua produção artística. Você integra o coletivo teatral de pesquisa cênica, “Os Crespos”, e uma das características do grupo é seu viés artístico consciente, politizado e discurso identitário de empoderamento. O engajamento político e social da classe artística é uma forma de romper as barreiras e as estruturas arcaicas que ainda enclausuram pensamentos e contaminam ações com ódio, preconceito e violência?

O Teatro que buscamos fazer ainda é uma zona autônoma, onde podemos tentar uma cidadania plena. Embora com o atual governo , vejo muito arriscado este modo de produção continuar com vigor. Acordamos e estamos vivenciando uma era de projeto político religioso em plena expansão, sendo assim ter espaços onde os envolvidos são criativos e possuem mais responsabilidade e entendimento de suas labutas, isto logo mais será crime.

 

7.) Quais seus projetos pra esse ano? O intercâmbio entre Cinema-Teatro-TV e as intervenções públicas do “Os Crespos” continuam a todo vapor sem nada a “temer”?

Nada a Temer, e tudo a temer. Assusta ver a promiscuidade e ignorância tomando todos os espaços. Sobre projetos no campo da publicação agora no dia 28 de janeiro iniciamos a distribuição do segundo número da Revista Legítima Defesa, uma publicação sobre o Teatro Negro. No campo do teatro, estreio o espetáculo “Pode o macaco falar?” que trata-se de uma pesquisa solo sobre o impacto dos estereótipos raciais na psique de homens negros, e inicio as filmagens de uma série para a TV Cultura – SP. Assim começamos o ano, em paralelo sim. Vamos continuar a circulação do repertório da Cia Os crespos, em especial a peça : “Cartas à Madame Satã, ou me Desespero sem Notícias Suas” que teve apresentações dentro da mostra Motumbá esse mês de março no Sesc Belenzinho.

 

Sidney Santiago no espetáculo “Cartas à Madame Satã, ou me Desespero sem Notícias Suas”, da Cia Os Crespos.

 

EXTRA! EXTRA! 

O filme acaba de ganhar o prêmio de “Melhor Filme” durante o Iguacine – 5º Festival de Cinema da Cidade de Nova Iguaçu. O mais bonito foi a justificativa:

“Prêmio de Melhor Filme da Mostra Competitiva Nacional vai para ‘Diamante, o Bailarina’ de Pedro Jorge por abordar de maneira contagiante questões de afirmação de gênero e raça, reunindo duas gerações de grandes atores negros, driblando estereótipos do cinema brasileiro.”

Mais um nocaute do cinema brasileiro em cima do preconceito e da intolerância! 👊

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