Crítica: Fome de Poder (2017)

Crítica: Fome de Poder (2017)

Fome de Poder não é ruim, porém frustrará consideravelmente cinéfilos carentes de uma cinebiografia robusta.”

Ficha Técnica:

Título original: The Founder

Distribuição: Diamond Films

País: Estados Unidos

Gênero: drama

Direção: John Lee Hancock

Elenco: Michael Keaton, Laura Dern, Patrick Wilson, John Carrol Lynch e Nick Oferman

A cinebiografia é um dos subgêneros mais complexos de ser realizado. A obra precisa emular minimamente a realidade sem soar pretensiosa, chata ou caricata. Além disso, quem resolve se aventurar em cinebiografias deve encontrar o ritmo ideal de narrativa para que o filme não se transforme numa espécie de “documentário encenado”.

Por esses motivos básicos, podemos concluir que não é uma tarefa fácil produzir uma cinebiografia de uma figura controversa como Raymond Alexander “Ray” Kroc, primeiro presidente da McDonald’s Corporation, um dos empresários mais bem-sucedidos da história, dono de um extenso histórico de traições e relações mal resolvidas.

Com a premissa de contar a verdadeira história do “fundador” da maior rede de restaurantes do mundo, ‘Fome de Poder’, do diretor John Lee Hancock (Um Sonho Possível), chega aos cinemas, entregando uma película irregular, que peca num roteiro viciado em clichês, mas, graças à competente interpretação do veterano ator Michael Keaton, está longe de ser um desastre completo.

Ray Kroc, um frustrado vendedor de máquinas de milk-shake, recebe uma grande encomenda de uma desconhecida lanchonete em San Bernardino, no estado da Califórnia. Ao ir ao estabelecimento, Kroc encontra um revolucionário conceito de cozinha rápida criado pelos irmãos Dick (John Carrol Lynch) e Mac McDonald (Nick Oferman). O comerciante se interessa pelo sistema e aí se inicia o principal conflito, que deveria justificar a obra.

A intenção de apresentar um dilema entre duas visões empresariais antagônicas, da primeira parte do filme, esbarra num considerável problema de falta de profundidade no desenvolvimento de alguns personagens centrais.

A emblemática questão fica nítida na forma em que os irmãos McDonald são retratados. O roteiro, assinado por Robert Siegel, descreve-os de maneira simplória, preguiçosa e abusando do estereótipo do caipira ingênuo americano. A relação de Kroc com sua mulher Ethel (Laura Dern) também não convence por ser muito artificial, e se revela um grande desperdício de tempo e potencialidades dramáticas.

A construção dos irmãos McDonald, enquanto personagens, deixa  muito a desejar…

No segundo ato, com a ascensão das franquias McDonald’s, o filme apresenta uma sensível melhora, devido a performance de Keaton, que se transfigura gradativamente, à lá Orson Welles, num clássico magnata disposto a tudo para criar um império particular. Porém, os logros são limitados por escolhas erradas do roteiro, que inexplicavelmente resolve não explorar a rivalidade entre Kroc e os irmãos e McDonald’s para apostar em subtramas desinteressantes.

A parte visual não compromete, mas poderia ter sido um dos diferenciais da cinebiografia. A McDonald’s transformou-se num verdadeiro ícone mundial da cultura pop, muito por conta de exitosas combinações estéticas em sua inconfundível identidade visual. Era desejável de um filme, que aborda as origens da marca refletisse alguma audácia nesse sentido. Se a direção de arte realizasse este apontamento, certamente ‘Fome de Poder’ ganharia um plus, que o diferenciaria bastante dos dramas convencionais.

Fome de Poder não é ruim, porém frustrará consideravelmente cinéfilos carentes de uma cinebiografia robusta. Se houvesse um pouco mais de esmero em sua realização… não seria difícil imaginar a película colecionando indicações à premiações importantes e até vencendo algumas estatuetas.

Se o roteiro ousasse na construção da personalidade de Ray Kroc, como esboçou em alguns momentos… haveria uma grande possibilidade do Oscar de melhor ator de 2017 ter sido conquistado por Michael Keaton.



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  • Brandon Maia

    Até que enfim você escreveu uma crítica, cara! Show! Assisti e concordo com quase tudo que você relatou. Concordo que é meio chato. Em certas horas parece aqueles telefilmes exibidos no History Channel. Também concordo que o Michael Keaton está muito bem, apesar dele insistir naquela mania de fazer caras e bocas que lembram o beatlejuice. Gostei também de você ter se atrelado ao filme e não ter feito uma análise socioeconômica da McDonald’s como outros críticos fizeram.