Crítica: Ed Wood

Crítica: Ed Wood

Ficha técnica:

Direção: Tim Burton

Elenco: Johnny Depp, Martin Landau, Patricia Arquette, Bill Murray e Sarah Jessica Parker

Roteiro: Larry Karaszewski e Scott Alexander

Nacionalidade e lançamento: Estados Unidos, 24 de setembro de 1994

Sinopse:

Muita gente admira o diretor Tim Burton, mas poucos viram este que é o seu melhor filme. “Ed Wood” é um trabalho autoral marcante, feito com muita paixão. Fascinado pelo cinema trash antigo, Burton faz aqui uma grande homenagem ao pior diretor do cinema de todos os tempos, o incomum Edward Davis Wood Jr (1924-1978).

Ed Wood, o pior de todos

Figura curiosa, Wood achava que estava fazendo a próxima obra-prima do cinema quando se envolvia nos mais estranhos projetos, entregando um filme mais bizarro que o outro para um público reduzido que ria mais do que admirava aqueles pratos pendurados em linhas finas, no que se propunham a ser discos voadores. E o que dizer dos atores divertidamente caricatos, sem saber direito o que faziam em cena. Ainda mais espantoso eram os erros grotescos de continuidade das cenas, onde, era dia, depois virava noite, e de repente dia novamente. Para Wood (Johhny Depp, demonstrando que funciona melhor sob ar ordens de Burton), qualidade era fazer o que se gostava, e cinema era de fato o que impulsionava sua vida. Ele não sabia nada de enquadramentos, planos, edição, fotografia, muito menos sabia o que era storyboard ou qualquer outro tipo de planejamento. O que lhe importava era filmar o que estava ao seu alcance (tudo da forma mais limitada possível)

No filme de Burton, vemos Wood no processo de filmagem de “Plano 9 do Espaço Sideral” (1959), constantemente eleito o pior filme de todos os tempos (particularmente, já vi piores. Este aqui ao menos diverte), onde temos a última aparição do lendário Drácula Bela Lugosi (interpretado brilhantemente por Martin Landau), em cenas toscas, onde se vê claramente o uso de um dublê totalmente diferente do ator (isso se deu porque Lugosi faleceu pouco depois de fazer algumas cenas). Estas cenas são recriações do momento mais produtivo da carreira de Wood. Há ainda citações aos filmes “Glen ou Glenda?” (1953) e “A Noiva do Monstro” (1955), entre outros.

Com “Ed Wood“, Burton fala do próprio cinema, de suas limitações, de sua magia e de nunca desistir de sonhar. Repare que todos os elementos preferidos do diretor estão presentes aqui. Em uma das melhores cenas, Wood encontra Orson Welles (Vincent D’onofrio). O genial diretor de “Cidadão Kane” lhe incentiva a continuar no ramo e não abrir mão do que acredita, mesmo diante das dificuldades. O pior e o melhor do cinema em uma mesma cena por si só já demonstra que a obra carrega um tom de homenagem, tudo feito como se fosse uma sessão das antigas matinês.

Para dar um clima mais nostálgico à obra, Burton preferiu filmá-la em preto-e-branco (um belo trabalho do fotógrafo Stefan Czapsky). O excelente elenco de apoio conta com as participações de Bill Murray, Patricia Arquette, Sarah Jessica Parker, Lisa Marie (interpretando Maila Nurmi, a Vampira), Jeffrey Jones e George Steele (no papel de Tor Johnson), entre outros.

É importante lembrar que a época dos filmes de Ed Wood era também a época em que o público começou a exigir filmes mais grandiosos, principalmente porque nos anos 50 a tela larga (widescreen) começou a tomar conta das salas de cinema, e superespectáculos como “A Ponte do Rio Kwai” (1957) e “Ben-Hur” (1959) enchiam os olhos de todos. Imagina-se então como Wood não tinha a menor noção de que suas produções eram comercialmente e visualmente pífias, em vista do que os grandes estúdios produziam naquele momento de grande transformação para a indústria cinematográfica.

Alguns filmes trash da época eram apenas financeiramente limitados, mas carregavam uma boa ideia, utilizando-se de metáforas sobre a Guerra Fria, etc. Mas os filmes de Ed Wood eram isentos de qualquer mensagem, porque o roteiro era basicamente inexistente, e o que vemos é, em grande maioria, um conjunto de cenas e sequências que não fazem o menor sentido.

Mas é por toda a má qualidade presente nos filmes de Ed Wood que sua obra é lembrada até hoje, como se pensássemos que “Até para ser ruim, tem que ser bom”. E é isso que Burton nos passa, a trajetória de um homem que imaginava que estava fazendo o melhor, e de fato Wood acreditava nisso. Não era um picareta que se aproveitava do dinheiro dos investidores. Wood realmente “embarcava” nos devaneios de grandeza profissional, e achava que sabia filmar, cercando-se de amadores por todos os lados, sempre o pior dos piores.

Wood também era conhecido por suas “excentricidades”, como às vezes se vestir de mulher (mesmo ele sendo casado), o que demonstrava uma personalidade também ambígua e complexa, tornando-o ainda mais curioso que suas próprias obras.

Premiado com os Oscars de melhor ator coadjuvante (Landau) e melhor maquiagem, “Ed Wood” é uma grande e divertida homenagem à arte de fazer cinema.

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