Crítica: Código de Silêncio (2017)
Código de Silêncio (Burning Sands) é um dos destaques do Festival de Sundance deste ano que foi adquirido pela Netflix.

Crítica: Código de Silêncio (2017)

Código de Silêncio (Burning Sands) é um dos destaques do Festival de Sundance deste ano que foi adquirido pela Netflix.

 

Ficha técnica:

Direção: Gerard McMurray
Roteiro: Christine Berg, Gerard McMurray
Elenco: Trevor Jackson, DeRon Horton, Steve Harris, Imani Hakim, Nafessa Williams, Trevante Rhodes, Octavius J. Johnson.
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2017 (10 de março de 2017: lançamento mundial em streaming)

Sinopse: Em plena semana de iniciação para entrar de vez na fraternidade Lambda Phi, Zurich (Trevor Jackson) se sente dividido entre permanecer no processo, mesmo sofrendo consequências físicas e emocionais, mantendo o código de silêncio do grupo, ou desistir e falar sobre os trotes abusivos pelos quais é obrigado a passar.

 

“É mais fácil desenvolver crianças fortes que reparar homens quebrados”. A frase do escritor abolicionista negro Frederick Douglass é repetida no filme de Gerard McMurray, e serve de base para a crítica social que o filme traz.

Para entender plenamente “Código de Silêncio” (Burning Sands, exibido no Festival de Sundance e comentado pela cobertura do #ConexãoSundance), é preciso absorver duas coisas muito comuns da cultura americana: as fraternidades, que são grupos sociais muito comuns nas universidades; e as HBCUs, faculdades historicamente negras construídas antes dos movimentos civis, e que mantêm uma maioria de alunos negros, mesmo após o fim da segregação racial no país.

Logo no começo, somos apresentados a Zurich (Jackson), que se encontra na semana de iniciação de uma importante fraternidade, junto com outros amigos. A narração em off deixa claro a inspiração no martírio como forma de penitência para atingir uma carreira de sucesso: como se qualquer sofrimento fosse justificável diante das vantagens de se participar de uma fraternidade.

Aos poucos, vamos compreendendo a situação de Zurich: teimoso e resistente, quer entrar na fraternidade a todo custo como forma de se provar ao seu pai, que não conseguiu passar pelo processo de iniciação. Além disso, é uma espécie de “preferido” do reitor, ex-membro da mesma fraternidade. Assim, vamos acompanhando o protagonista em uma série de situações humilhantes e violentas que visam fazê-los desistir, em um processo que se assemelha à seleção de policiais do BOPE vista em “Tropa de Elite” – até mesmo no fato de chamarem os calouros por números.

A nós brasileiros, o processo parece exagerado, já que nem mesmo os trotes violentos em algumas das nossas universidades se assemelham ao que ocorre aqui. Mas não me espantaria que isso seja realmente verdadeiro – e o próprio diretor, estreante em longas, diz ter se baseado em sua própria experiência pessoal.

Com um clima que procura mergulhar no sentimento de tensão e peso da semana que Zurich vive, “Código de Silêncio” é eficiente em colocar comentários sociopolíticos ao longo da trama: vemos uma aula que fala sobre estratégias de controle baseadas no medo que os senhores impunham aos escravos; e citações diretas à origem africana dos personagens, seja quando o protagonista sugere viajar para o Zimbábue, recebendo uma negativa da namorada que afirma ser de Chicago; ou a menção ao fato de serem descendentes de reis e rainhas, mais do que de escravos.

Assim, não é de se espantar que, ao ver as costas machucadas do colega, um dos estudantes diga que ele está com “costas de um escravo”; ou que o amigo rico seja taxado como não sendo um “negro de verdade” – por comer mais sushi e menos asinhas de frango. E sabemos que não é à toa que o diretor coloque os estudantes tendo um ritual obscuro da fraternidade sendo interrompido por policiais brancos.

No que diz respeito às atuações, Trevor Jackson consegue segurar muito bem o filme todo com excelente carga dramática, mas ouso destacar as atrizes Imani Hakim, que vive a namorada Rochon, e Nafessa Williams, que combina doçura e sensualidade na personagem Toya. Também vale citar Trevante Rhodes, que aborda um típico líder de fraternidade e abandona totalmente a fragilidade vista recentemente no premiado “Moonlight”.

É uma pena, portanto, que o roteiro de “Código de Silêncio” falhe na construção gradativa de acontecimentos que levem o protagonista de um ponto ao outro de maneira orgânica. Em muitos momentos, o filme ganha tons episódicos – aumentados pela inserção de letreiros que indicam o dia da semana – e parece não criar uma estrutura de “ação e reação”, parecendo apenas uma série de acontecimentos independentes. Isso só enfraquece os momentos finais, que poderiam ser mais impactantes caso houvesse um trato mais apurado do peso do trote sofrido pelo grupo de iniciantes. Aliás, o roteiro falha bastante ao plantar pistas de uma possível consequência com um personagem e mostrá-las acontecendo com outro.

A noção de tempo da trama também é falha ao mostrar cortes abruptos e repentinos, já que eles fazem com que o filme pareça se passar em um período mais longo que uma semana. E se Zurich estava passando madrugadas nos ditos treinamentos da fraternidade, deveria ter demonstrado sentir algum cansaço ou sono. Note, por exemplo, quando Zurich está na casa de um médico, ex-membro da fraternidade, e de repente é visto em uma ação do grupo, em uma sequência abrupta e pouco convincente quanto à passagem de tempo.

Mesmo assim, “Código de Silêncio” traz importantes questionamentos sobre o processo violento de entrada nas fraternidades – algo distante da nossa realidade, mas que é importante para os americanos. O fato de se passar em uma universidade historicamente negra permite questionar de que forma esses trotes reproduzem um comportamento herdado justamente dos brancos escravagistas.

E as falas de Zurich sobre a necessidade de sofrimento também podem ser transferidas do micro (a situação do protagonista) para o macro: a situação dos negros nos Estados Unidos (que, por semelhança histórica, pode ser facilmente adaptada ao Brasil). Afinal, se o protagonista não precisa de nenhuma penitência para conquistar seu espaço, nenhum negro precisa sofrer para ocupar um lugar de destaque, tal qual herdeiros de reis e rainhas.

 

Confira a cobertura dos filmes do Festival de Sundance 2017!

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  • Maurício Costa

    Este eu comentei na nossa cobertura de Sundance. Dia 10. Burning Sands!

  • Daniel Lemos Cury

    Sim! Por isso eu coloquei o link logo no começo!

  • Maurício Costa

    Não tinha visto. O importante é que demos a mesma nota. rs

  • Maurício Costa

    O temas das fraternidades é muito forte nos EUA. O cinema independente de lá produz muitos filmes sobre isso. Em 2016, teve outro, chamado Goat (no Brasil, se chama O Trote), também sobre o processo de iniciação. É tudo verdade, é impressionante.

  • Maurício Costa

    Tà na TV a cabo, vale a pena ver e comparar.