Crítica: O.J.: Made in America

Crítica: O.J.: Made in America

Ficha técnica:

Direção e roteiro: Ezra Edelman

Nacionalidade e lançamento: Estados Unidos, 20 de maio de 2016

Sinopse:

No mesmo ano em que o canal de TV americano FX lançou a minissérie “The People v. O.J. Simpson: American Crime Story”, sobre o famoso julgamento do ex-jogador e ator O.J. Simpson, acusado de assassinar sua ex-esposa Nicole Brown e o amigo dela Ronald Goldman, outra produção também tratava do mesmo tema, dessa vez em forma documental. “O.J.: Made in America” é uma longa produção de mais de 7 horas e 40 minutos de duração, feita originalmente para a ESPN films em cinco partes, mostrando através de entrevistas, imagens e sons de arquivos, o longo processo do julgamento de Simpson.

 

 

 

 

 

O. j. Simpson: Ascensão e queda

O documentário “O.J.: Made in America” trilha um longo percurso para mostrar de forma minimalista toda a trajetória do ex-jogador e ator O.J. Simpson, de seus primeiros anos de conquista até sua queda décadas depois.

O. J. Simpsons desde cedo demonstrou enorme carisma, quando em 1968, jogando futebol americano universitário, foi notado e reconhecido por seu grande talento, logo se transformando em uma grande celebridade. Com o passar dos anos, Simpson foi conquistando várias vitórias até conseguir entrar em um time profissional. Aliado ao seu sucesso no esporte (ele também foi campeão em corridas), Simpson também fez boa carreira no cinema, participando de filmes como “Inferno na Torre” (1974), “Capricórnio Um” (1977) e a trilogia “Corra que a Polícia Vem Aí” (1988-91-94).

O documentário mostra as várias faces de Simpson, de seu sucesso até ser preso e julgado. O diretor Ezra Edelman criou uma obra forte e dinâmica, indo atrás de inúmeras informações, no intuito de não deixar nada passar em branco. São diversas entrevistas com as mais variadas pessoas envolvidas em todo o processo, dando depoimentos e revelando várias surpresas. Imagens de arquivos nos ajudam a situar o que aconteceu durante as quatro décadas de histórias envolvendo Simpson.

Simpson desde o início era criticado por não usar sua fama e prestígio para lutar em prol dos negros que eram perseguidos incansavelmente pela polícia na conturbada Los Angeles. Em imagens fortes de perseguições em bairros pobres nos anos 60, 70 e 80, vemos um país fragmentado e dividido, visivelmente vivendo uma guerra urbana contra a comunidade negra. É impressionante como o comandante de polícia era inconsequente e irresponsável, deixando que o racismo tomasse conta das ruas.

Tudo piora quando vem à tona imagens gravadas de um homem negro sendo covardemente espancado pela polícia. O homem em questão era Rodney King, e este acontecimento serviu como alerta do que vinha acontecendo nas ruas de Los Angeles, e que muitas autoridades fingiam não ver. A situação se agravou ainda mais quando, poucos dias depois,  a jovem Latasha Harlins foi morta por uma coreana. Os policiais que espancaram King foram levados à julgamento, mas foram inocentados. Isto gerou uma série de protestos violentos pela cidade. Mas nada disso importava para Simpson, que continuava seguindo em sua vida de sucesso, atuando em filmes e comerciais de TV.

Simpsons era casado quando se envolveu com Nicole Brown. Posteriormente ele se separaria da esposa para se casar com Nicole. Esta era loira, o que mexeu com a opinião pública de uma sociedade dividida entre brancos e negros. Depois de muitas brigas entre os dois, o casal se separa. Em 1994, a polícia encontra Nicole e seu amigo Ronald Goldman brutalmente assassinados. Todas as provas incriminavam Simpson.

Edelman esmiúça cada detalhe dos acontecimentos, se apoiando em imagens reveladoras e depoimentos bombásticos. Muitos destes depoimentos, feitos 20 anos depois do julgamento revelam fatos que teriam mudado todo o rumo da história se tivessem sido revelados na época. Depoimentos que deixam claro o que acontecia nos bastidores: intrigas, conivências, denúncias mal apuradas, traições, disputa pelo poder. Todos os elementos de uma tragédia grega estão presentes.

É no julgamento de Simpson que a tensão alcança seu ponto máximo. Entre os advogados de defesa temos os lendários Johnnie Cochran e Robert Shapiro, Do lado da acusação, se destaca a promotora Marcia Clark. Formaram-se dois grupos de advogados experientes, contra e a favor de Simpson. Mas o julgamento foi além do esperado, quando tudo começou a virar um show televisivo, saindo do controle de todos.

Os advogados de defesa devoraram os advogados de acusação, apelando para tudo que podia somar a favor do réu. No tribunal, eles destruíram o investigador de polícia Mark Fuhrman (que era racista), acusando-o de plantar provas para acusar Simpson. Outro que foi destruído na frente de todos foi o policial Ron Shipp. Este era amigo de Simpson, mas resolveu testemunhar contra ele quando se deu conta da barbaridade cometida pelo amigo. É comovente seu depoimento ao falar de seu primeiro caso de homicídio.

Tudo ia mal para os advogados de acusação, e o resultado disso tudo foi Simpson ser declarado inocente pelo júri. Este júri era composto por algumas pessoas que, anos depois, assumiram que a decisão se deu por vingança, uma resposta à soltura dos policiais envolvidos no espancamento de Rodney King. Em todos os momentos, diversos entrevistados questionam a veracidade daquele julgamento, dizendo que tudo aquilo era planejado, acusando Simpson de manipular alguns dos envolvidos, fazendo daquilo tudo seu show particular. De fato, é impressionante como Simpson conseguia se dar bem em tudo, convencendo milhares de pessoas de que ele era inocente, mesmo com todas as provas mostrando que ele era culpado.

Alguns amigos em depoimentos afirmavam que o próprio Simpson em conversas entre eles, dizia indiretamente que ele assassinara a ex-esposa e o amigo dela. Impressiona também saber, através de áudios gravados, que Nicole ligava sempre para a polícia, denunciando violência sofrida pelo marido. Porém, ninguém parecia querer bater de frente com alguém que era uma celebridade nacional, fazendo vistas grossas ao que acontecia. Os pais de Ronald Goldman perseguiram Simpson o tempo inteiro, não sossegando até que ele fosse declarado culpado pelas duas mortes.

Simpson tinha muitos amigos. Alguns deles eram bem fiéis a ele, outros aos poucos foram se distanciando. Um deles é o diretor Peter Hyams, que ficou do lado de Simpson, até se dar conta que o astro era de fato culpado dos crimes. O ex-jogador começou a não fazer tanta questão em esconder sua culpa, se envolvendo em escândalos e situações que aos poucos iam revelando sua verdadeira personalidade, desnudando seu status de mito, fazendo com que sua popularidade caísse consideravelmente. Treze anos após o julgamento, Simpson se envolveu em uma inusitada situação que o fez ser condenado por assalto à mão armada e sequestro, entre outros crimes. Muitos acreditam que esta condenação no fundo foi para reparar o erro da sentença de 1995.

“O.J.: Made in America” é uma obra documental muito bem produzida, que, mesmo com sua longa duração, nunca se torna cansativa. Tem uma estrutura ficcional, porém isso é mérito de sua bem elaborada edição, e não de manipulação, sendo que os acontecimentos são gerados por si mesmos, sem a intromissão de um roteiro esquemático que conduza a trama. O que é dirigido aqui é a ordem das entrevistas, imagens e sons de arquivos, e como elas se encaixam nos momentos certos, dando maior dinamismo e qualidade ao grandioso projeto.

Venceu o Oscar de melhor documentário em 2017, sendo a produção mais longa já premiada pela Academia, superando o filme russo “Guerra e Paz” (1967) com mais de 7 horas de duração, e “Cleópatra” (1963), com pouco mais de 4 horas. “O.J.: Made in America” é sem dúvida um dos melhores documentários dos últimos anos.

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