Crítica: Lion: Uma Jornada para Casa
Lion: Uma Jornada para Casa

Crítica: Lion: Uma Jornada para Casa

Lion: Uma Jornada para Casa” é um drama eficiente que, tal qual seu protagonista, se perde para depois de reencontrar.

Lion: Uma Jornada para Casa

Ficha técnica:
Direção: Garth Davis
Roteiro: Luke Davies (baseado no livro de Saroo Brierley)

Elenco: Sunny Pawar, Abhishek Bharate, Priyanka Bose, David Wenham, Rooney Mara, Dev Patel, Nicole Kidman
Nacionalidade e lançamento: EUA, Austrália, Reino Unido, 2016 (16 de fevereiro de 2017 no Brasil)

Sinopse: Um menino indiano de 5 anos se perde nas ruas de Calcutá, a milhares de quilômetros de sua casa. Ele sobrevive a desafios antes de ser adotado por um casal australiano. 25 anos depois, ele descobre uma forma de reencontrar sua família com ajuda da tecnologia.

 

 

De que serve a arte se não for para sentirmos outras emoções que não sentiríamos de outra maneira? É isso que a torna tão importante: oferecer aos sentimentos do espectador uma experiência que não seria possível na vida real. Eu, que nunca tive que procurar meus pais verdadeiros, muito menos em um outro país, senti a beleza do encontro de Saroo (Patel) com sua mãe (Bose) e não pude conter as lágrimas de um espectador envolvido com o filme diante de seus olhos.

“Lion: Uma Jornada para Casa” tem grandes méritos e estranhos paradoxos. Ao mesmo tempo em que não dá espaço para alegria – nem mesmo nos momentos em que o protagonista se diverte com a namorada – o longa não pode ser acusado de exagerar no sentimentalismo. Afinal, o que dá o tom de dramaticidade para a história é exatamente o que ela conta: o drama de um jovem de origem indiana que, após se perder da família paupérrima, acaba sendo adotado por um casal de australianos. Apenas mais velho, decide conhecer sua família verdadeira.

Lion: Uma Jornada para Casa

Algumas escolhas do diretor Garth Davis são extremamente eficazes para que a história a seja contada. As cenas iniciais – e repetidas mais tarde no longa – da Índia vista de cima fazem um paralelo com as imagens vistas no Google Maps pelo protagonista, indicando a maneira como ele aprendeu a ver o mundo. A escolha do elenco é outro acerto à parte: o menino Sunny Pawar é a grande descoberta-mirim do ano – tal qual Jacob Tremblay foi no ano anterior – e Dev Patel consegue dar o peso necessário ao filme, assim como Nicole Kidman, que transmite toda a doçura que sua personagem pede.

Ainda que os aspectos técnicos não escapem do básico – como a fotografia quente para mostrar a Índia e uma paleta menos saturada para destacar a Austrália, além de uma trilha sonora nada mais que esperada – “Lion: Uma Jornada para Casa” consegue mostrar a trajetória de Saroo de forma crível e orgânica, destacando a esperteza do personagem e aproveitando-se dos olhos extremamente vívidos do carismático Sunny Pawar. Dividido em duas metades que mostram, basicamente, as trajetórias de Saroo indo embora e depois voltando para o lugar de onde saiu, o filme consegue criar uma situação cinematograficamente orgânica para fazer com que o protagonista opte por investigar suas origens, e a cena em que ele vê os doces que admirava na infância forma um belíssimo paralelo com os famosos bolinhos do clássico literário “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust.

Lion: Uma Jornada para Casa

A forma como o diretor opta por mostrar a memória de Saroo voltando aos poucos é eficiente para mostrar como seu passado estava adormecido, e a presença de Rooney Mara como sua namorada funciona apenas como uma forma de criar conflito e mostrar a maneira crescente como Saroo passa a dedicar tanto de seu tempo a procurar alguma resposta no programa recém criado Google Earth. Aliás, o desafio de transformar em ação imagética uma busca incessante pelo computador faz com que o meio do filme se torne a parte menos eficaz do longa, ainda que Patel coloque toda sua energia nas dores do personagem. E se a presença do irmão problemático de Saroo funciona apenas como um acréscimo de conflitos para o drama familiar, a interação de Patel com Kidman cria ótimos momentos de drama, que só não ultrapassam a belíssima sequência na qual Saroo finalmente retorna ao bairro onde havia crescido – repare no surgimento gradativo da mãe dele, que está no meio de um grupo de pessoas, referenciando o fato de ser mais uma em uma multidão de pessoas como ela.

Se tivesse sido lançado em outro período, com outros produtores e atores, “Lion: Uma Jornada para Casa” seria um filme emotivo, eficiente e esperançoso, mas sem tanto destaque. Mas com a presença de um Dev Patel retornando aos holofotes, Nicole Kidman em boa forma e os irmãos Weinstein assinando a produção, é claro que o longa teria indicações ao Oscar, mesmo não sendo considerado favorito.

Mas aí penso que cinema talvez seja mais sentimento que razão. E me lembro de como me senti quando vi mãe e filho se reencontrando após décadas separados. Então me questiono – sem saber a resposta – se Oscars e estrelas valem mais do que lágrimas.

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