Crítica: Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016)

Crítica: Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016)

Moonlight: Sob a Luz do Luar foi indicado em oito categorias do Oscar.

Ficha técnica:
Direção e Roteiro: Barry Jenkins
Elenco: Alex Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes, Mahershala Ali, Janelle Monáe, Naomie Harris, Andre Holland
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2016 (23 de fevereiro de 2017 no Brasil)

Sinopse: Três momentos da vida de Chiron. Um jovem que vai descobrindo como lidar com o jeito que o mundo lida com ele. Preconceitos e outros percalços inundarão o cotidiano daquele personagem.

Moonlight possui uma narrativa que em mãos pouco talentosas descambaria e se tornaria um filme médio ou talvez até ruim. Felizmente o pouco experiente Barry Jenkins, dirigindo apenas o segundo longa da carreira, apresentou um trabalho delicado e ao mesmo tempo contundente. A obra realmente merece os elogios que vem recebendo – apesar de não ter ido muito bem nas premiações recentes e perdendo alguma força na reta final para o Oscar (inexplicável, por exemplo, a perda na categoria de melhor elenco no SAG para o time de Estrelas Além do Tempo).

A quebra dos esteriótipos e o estudo de personagem são destaques aqui. Nas cenas iniciais a coisa te leva para um lado e brinca com possíveis preconceitos do público – algo que serpenteia toda a trama. Vemos um mundo mais real, sem grandes maniqueísmos na maior parte dos personagens. O traficante Juan, brilhantemente interpretado pelo provável vencedor do Oscar Mahershala Ali, é uma figura paternal, sincera e humana. Kevin (vivido muito bem por três atores) tem camadas e não sabemos ao certo o próximo passo dele, o desfecho do personagem é profundo e pode ser considerado a síntese do filme.

Isso tudo sem mencionar o protagonista Chiron. O que Jenkins faz é se debruçar nas angustias do personagem e extrair um belíssimo e complexo estudo daquele menino/homem. Acompanhamos várias fases da vida em uma jornada reflexiva, que nunca permite soluções simplórias. Tem-se um desconhecimento da própria persona, uma tentativa de afirmação e Chiron lidando com a mãe drogada, o bullying no colégio, preconceitos vários, os desafios no subúrbio e do mundo do tráfico. Reitero: esses temas, poderiam ser mais do mesmo ou apelar para um melodrama barato. O que Moonlight traz é o oposto: uma abordagem consistente e acinzentada.

A câmera constantemente apresenta movimentos circulares e vacilantes, o que coaduna com a inquietação de Chiron. A fotografia é precisa nos enquadramentos e principalmente no uso das cores – repare o sentido narrativo da paleta azulada ou de pequenos objetos com essa cor. A montagem deixa alguns segmentos subentendidos, nunca duvidando da inteligência do espectador. A estrutura em três atos bem divididos é uma decisão do roteiro que foi bem executada – nunca sentimos o todo desconexo. A trilha tem tons variados e positivamente marcados, o que realça o que está sendo mostrado e ajuda em não enveredar para a construção de um pieguismo.

O trio que dá vida a Chiron (Alex Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes) tem características peculiares, mas dentro de um mesmo fio condutor. O olhar perdido, amedrontado e taciturno do primeiro; a descoberta, alguma firmeza e confusão do segundo; o vigor, as fraquezas e coragem do terceiro… tudo isso compõe o todo de maneira orgânica. Pelas características elencadas já dá para ter um indício que não se trata de um ser raso. É tão gratificante quando encontramos em tela alguém possível de ser descrito com mais de dois adjetivos…

Um dos méritos em Moonlight é tratar de assuntos universais, principalmente no que tange ao preconceito, mas sem ser panfletário. A condução dessa questão é a partir do drama de um homem. O tema não é abordado de forma verborrágica, o que vemos é algo mais contido – sem nunca soar banal.

Dada a concorrência com La La Land, Um Limite Entre Nós e A Chegada, Moonlight deve ficar apenas com a estatueta de Ator Coadjuvante – o que por um lado é triste de um longa desse quilate só ter um prêmio, por outro demonstra a qualidade dos concorrentes. Para aqueles que reclamam que na indústria só tem porcaria, vale apresentar esses títulos como argumento….

PS: eu considero que o trailer revela coisa demais da trama. Quem não liga para spoiler pode vê-lo, aqueles que preferem ser surpreendidos na hora é melhor não conferir…

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  • Daniel Lemos Cury

    Gosto muito de como o filme diz tudo sem falar quase nada. Ele é centrado nas pessoas e no olhar humano do diretor sobre essa realidade que eles vivem. É tão bom qdo um filme não tem maniqueismo nenhum!

    • Lucas Albuquerque

      Assino embaixo… Tantos filmes tentam ser verborrágicos e acabam vazios… Moonlight tem a sutileza de um olhar como marca. Um dos grandes filmes do Oscar…
      Só a personagem da mãe dele achei um pouco maniqueísta…