Crítica: O Mensageiro do Diabo

Crítica: O Mensageiro do Diabo

Ficha técnica:
Direção: Charles Laughton.
Roteiro: James Agee.
Elenco: Robert Mitchum, Lillian Gish, Shelley Winters, Billy Chaplin e Sally Jane Bruce.
Nacionalidade, Ano de produção: EUA, 1955.

 

Em “O Mensageiro do Diabo” temos uma clara definição do bem contra o mal, onde se estabelece um conflito que permeia todo o filme: Um falso pastor casa-se com a mulher do homem que ele assassinara, e assim, toma o lugar de chefe daquele âmbito familiar, tentando dominar não apenas a esposa, mas também os dois filhos dela. Ele mata a mulher e persegue as crianças, em busca do dinheiro roubado pelo pai delas. Além do poder exercido pelo falsário, os meninos precisam se submeter a seu domínio para depois tentarem escapar daquela casa. Uma velha senhora irá proteger os meninos das garras do terrível e incansável criminoso.

Um filme sobre poder, ambição e muita maldade. A ideia de poder está claramente presente na cena do jantar, onde o falso pastor, como instrumento da maldade, se apossa de um terrível domínio, quando se nega a alimentar as crianças, se estas não revelarem onde está o dinheiro. Esse domínio remete ao início do filme, quando tal personagem através de palavras hábeis, conseguiu fazer com que sua primeira vítima revelasse onde estava o que ele tanto procurava.

A maldade está presente em várias passagens do filme, principalmente após uma incansável perseguição do criminoso aos dois meninos fugitivos. Um deles, escondido, o avista, dizendo: “Ele nunca dorme?”. Isso alude ao mal sobrenatural, o mal que está em vários lugares, sondando a tudo e a todos. Essa implacável perseguição do falso pastor na busca pelo dinheiro, faz dele um ser ambicioso e destrutivo, que em alguns momentos lembra o matador incontrolável interpretado por Javier Bardem em “Onde os Fracos Não têm Vez” (2007).

Este é o lugar de medo, porque o medo é sentido em uma situação de estranhamento com o que se vê ou o que não se vê, e que está ali de alguma maneira, exercido em várias formas. A maldade causa o medo. Assim, o medo num descontrole da razão, faz com que uma das crianças acabe cedendo ao mal que a persegue, e revele onde está o dinheiro, a causa real de toda a maldade vinda daquele terrível homem.

O tema religioso é utilizado aqui como recurso da linguagem cinematográfica, simbolizando controle, indo da subserviência (falso pastor perante Deus) ao domínio (pessoas da cidade perante falso pastor). Isso nos leva à questão moral e espiritual de um homem (o falso pastor) que tenta convencer as pessoas da cidade, que ele está fazendo algo em prol de uma boa causa. Com os dedos de uma mão tatuado a palavra “amor” e os dedos da outra mão tatuado a palavra “ódio”, o fanatismo desse impostor fica mais visível, principalmente em seus discursos sobre a imoralidade e a rebeldia, o qual os condena de forma veemente, mas que acaba agindo de forma ainda pior. Durante todo o tempo, ele age como um ser que aniquila seu meio social em prol do fanatismo, para conseguir o que deseja.

Temos como um dos principais temas utilizados pelo cinema: a identidade. Aqui, o criminoso se apossa do lugar de chefe daquela família, composta, como já dito,  por uma mulher e seus dois filhos. De posse desse lugar de proteção familiar, o terrível homem planeja destruir todos ali, utilizando-se da identidade nova (um homem aparentemente gentil, recém-chegado a uma pequena cidade, se fazendo passar por alguém sincero e honesto). Esse recurso de alguém que chega a algum lugar, utilizando-se de uma “máscara” projetada moralmente, nos lembra o conto “Barba Azul”, de Charles Perrault, e adaptado de forma mais sutil por Charles Chaplin em “Monsieur Verdoux” (1947). Trata-se especialmente de um elemento de troca, uma substituição parcial no qual se notará uma perda ou ganho, para o bem ou para o mal, mas nunca algo especificamente igual ao que era antes.

O Mensageiro do Diabo” é o único filme dirigido pelo elogiado ator inglês Charles Laughton. Um trabalho brilhante, onde ele utiliza o cultuado ator Robert Mitchum de forma magistral. Este tem aqui a melhor atuação de sua carreira. A veterana Lillian Gish (muito famosa nos primórdios do cinema mudo, pelas parcerias com o diretor D. W. Griffith) brilha como a matriarca protetora, e Shelley Winters vive a atormentada esposa. As crianças, interpretadas por Billy Chaplin e Sally Jane Bruce também se destacam. A belíssima fotografia em preto e branco de Stanley Cortez dá um tom lírico e inesquecível a várias cenas, em especial quando a esposa está debaixo d’água, e a fuga dos meninos em um barco. Um roteiro primoroso de James Agee, baseado em um romance de Davis Grubb.

 

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