ISSO É MUITO BLACK MIRROR – RETRATOS DA VIOLÊNCIA EM “ENGENHARIA REVERSA (MEN AGAINST FIRE)” PARTE DOIS

ISSO É MUITO BLACK MIRROR – RETRATOS DA VIOLÊNCIA EM “ENGENHARIA REVERSA (MEN AGAINST FIRE)” PARTE DOIS

“O importante, creio, é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder” – Michael Foucault deveria ter visto Black Mirror. Men Against Fire e a poder do discurso, minorias e dispositivos de violência.

Ficha técnica:
Direção: Jakob Verbruggen
Roteiro:
 Charlie Brooker
Elenco: Malachi Kirby, Madeline Brewer, Ariane Labed, Sarah Snook
Sinopse (oficial Netflix): Após sua primeira batalha contra um inimigo elusivo, um soldado começa a ter sensações estranhas e sentir pequenas falhas técnicas.

Este é a segunda parte, de duas, de um análise sobre o seriado Black Mirror, precisamente do quinto episódio da terceira temporada, agora produzido e distribuído pela Netflix. Leia a primeira parte aqui (fundamental para continuação da leitura).

Este artigo foi originalmente escrito por mim e pela Natália Zamprogno para a disciplina “Teoria dos Efeitos de Mídia”, administrada pelo doutor em Comunicação pela UFF, Kleber Mendonça, e por sua orientanda, Tatiana Lima, no curso de graduação Estudos Culturais e de Mídia, da Universidade Federal Fluminense.

Adaptei o seu conteúdo para a web, de maneira a ficar mais fluído e interessante para o público em geral.

Para maiores informações sobre fontes, bibliografia, etc, é só adicionar um comentário no final da página.

A partir deste ponto, este artigo contém revelações sobre enredo e acontecimentos da drama, continue lendo por sua conta e risco. 


 

Já o dispositivo de distinção entre o essencial e o acidental faz crer que a sociedade não é violenta por essência, sendo a violência um acidente, algo esporádico, de modo que os meios de comunicação se referem à mesma como “epidemia”, “surto”. Na série pode-se observar como o imaginário da violência em relação às baratas é visto como uma passageira desordem, de modo que cabe aos soldados resolverem esta “crise”, caçando todos os monstros que perturbam com a paz do cidadão de bem, para que se retome a ordem da sociedade. Pintar as baratas como o inimigo que deve ser caçado esconde de toda a população o programa global de extermínio das minorias para “proteger a linhagem”, ideal o qual não teria sido aceito por todos os cidadãos.

Em uma passagem de seu artigo sobre os tipos de violencia, Chauí diz:

“Dessa maneira, as desigualdades econômicas, sociais e culturais, as exclusões econômicas, políticas e sociais, o autoritarismo que regula todas as relações sociais, a corrupção como forma de funcionamento das instituições, o racismo, o sexismo, as intolerâncias religiosa, sexual e política não são considerados formas de violência, isto é, a sociedade brasileira não é percebida como estruturalmente violenta e por isso a violência aparece como um fato esporádico superável.”

 

 

Se no produto audiovisual tal mascaramento da estrutura violenta é literalmente… mascarado, na sociedade atual o que acontece é a camuflagem, também proposital, através de discursos e lugares de fala. Por exemplo, na cobertura da tomada do Complexo do Alemão pelas forças policiais, toda narrativa midiática era construída para que a população geral visse aquela situação numa falsa dualidade, onde os homens fardados eram os heróis e qualquer indivíduo contra eles, ou que apenas questionasse os seus atos, eram seus inimigos, os bandidos, que devem ser abatidos. Até na ficção, a cena do soldado chegando ao topo do morro e hasteando a bandeira nacional, em “Salve Jorge”. Um ato extremamente simbólico, que remete a tomar posse, a dominação e a humilhação dos derrotados.

Para produzir esse tipo de narrativa dualista e ela se tornar crível diante de toda uma sociedade, a chave é apenas uma, segundo Foucault:

“O importante, creio, é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder (não é − não obstante um mito, de que seria necessário esclarecer a história e as funções − a recompensa dos espíritos livres, o filho das longas solidões, o privilégio daqueles que souberam se libertar). A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro.”

Paralelamente, na realidade e na ficção, quem tem esse tipo de poder nas mãos são o governo e seus aliados, como as mídias e outros governos, por exemplo.

Outro ponto abordado no episódio era o trauma sofrido pelos soldados e como, em campo de batalha, os seus “lados humanos” venciam e se recusavam a matar. Decerto, algo que não agradou aos países em guerra, onde quanto mais se mata do lado oponente, mais perto da vitória se está. Nisso, as autoridades tomaram para si o “fardo” de decidir quem vive e quem morre, tirando o dilema moral das mãos daqueles que estão nas trincheiras da guerra. Também muito bem expressado de outra forma, quem tem a vida passível a luto diante de um determinado grupo social e quem não tem. As mortes de seus companheiros e de civis nas batalhas estavam traumatizando os soldados, os paralisando, os mandando de volta pra casa. Uma pessoa não pensa duas vezes ao matar uma barata, muito menos fica com Estresse Pós-Traumático por causa disso.

Equiparável com as guerras não-fictícias e com o cotidiano da vida real, onde o discurso dos poderosos, dos principais canais midiáticos e das classes dominantes decide qual vida tem valor e qual não tem e pela qual se deve sofrer o luto, como é discutido por Judith Butler em “Vida precária, vida passível de luto”. Decide, que o bebê não-nascido, mal desenvolvido, merece mais empatia que o jovem morador da comunidade. Nesse mesmo sentido, as baratas são vidas que não são consideradas vidas, ou dignas de empatia, enquadradas em uma armação do plano do governo.

Conclusão

A partir desta análise percebemos grandes semelhanças entre a ficção e a realidade; entre uma série britânica e o contexto sócio-político brasileiro que vivemos. Apesar de Black Mirror ter seu foco nas tecnologias e seus impactos, o caráter humano do episódio se sobressai. No episódio analisado, a tecnologia – o chip MASS – é apenas um aparato de apoio, não é a causa dos desdobramentos. Percebemos um sistema que se mantém a partir da própria índole humana, dado o discurso de intolerância propagado. As relações de poder estabelecidas no cenário de guerra não existem apenas na ficção e não dependem da tecnologia.

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  • Daniel Lemos Cury

    Citar Chauí e Foucault no mesmo texto ganha o meu coração! rsrs
    Saudades textos acadêmicos! Sempre bom pra ampliar os horizontes aqui no Cinem(ação).

    • Iole Melo

      Próximo semestre tem mais hahaha

      E mesmo nos textos “comuns” vou tentar trazer esse olha mais técnico e citar fontes para quem quiser saber mais de onde veio a linha de raciocínio utilizada

      Sempre fui apaixonada por foucault, aí li chauí e me amarrei tb!!

  • Gomes CT

    Ainda não assisti a serie e já estou a ver como a mesma apresenta uma qualidade extrema no conteúdo.
    Obrigado pelo artigo bem escrito e a comparações efectuadas. Lubango – Angola.

    • Iole Melo

      Oi Gomes.
      Muito obrigada!

      Assiste sem medo que você não vai se decepcionar.
      Aqui no Cinem(ação) escrevi artigos sobre outros episódios da série também. Dá uma olhada!

      Até mais

  • Ellen Neves

    eu queria s fontes bibliograficas de chauí

    • Iole Melo

      Oi Ellen,

      A referência usada no artigo é essa:
      CHAUI, Marilena. “Uma ideologia perversa: explicações para a violência impedem que a violência real se torne compreensível” Folha de S. Paulo, 14 de março de 1999.

      Se quiser, me passa o seu email que te envio o artigo na integra!

      Beijão