Crítica: Manchester à Beira-Mar
Manchester à Beira-Mar, com Casey Affleck, está na corrida para o Oscar

Crítica: Manchester à Beira-Mar

Manchester à Beira-Mar, com Casey Affleck, está na corrida para o OscarManchester à Beira-Mar é um drama frio e triste que consegue levar o espectador a entender a dor de um homem dilacerado com o seu passado.

 

Ficha técnica:

Direção e Roteiro: Kenneth Lonergan
Elenco:  Casey Affleck, Kyle Chandler, Michelle Williams, Lucas Hedges, C.J. Wilson.
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2016 (19 de janeiro de 2017 no Brasil)

Sinopse: O zelador e “faz-tudo” Lee Chandler se vê obrigado a voltar para Manchester, sua cidade natal, após perder o irmão. Lá, descobre que foi designado para ser o tutor do sobrinho de 16 anos. A nova vivência o obrigará a reviver memórias dolorosas do passado e explicará por que ele saiu da cidade.

 

 

No primeiro diálogo de “Manchester à Beira-Mar”, Lee questiona o pequeno Patrick sobre quem seria a melhor opção de companhia para viver em uma ilha deserta. O tio tenta argumentar que ele seria a melhor opção, devido aos seus conhecimentos de pesca e sobrevivência, mas não consegue evitar que o pequenos escolha o próprio pai para a hipótese lúdica. Ao longo da trama, no entanto, é possível ver que o garoto estava certo.

Mas não. “Manchester à Beira-Mar” não é tanto sobre escolhas como é sobre perda e, inevitavelmente, a falta de escolhas.

Na trama, acompanhamos Lee Chandler (Affleck) voltando para Manchester (na verdade, uma espécie de distrito, chamado Manchester-by-the-sea, em Massachusetts) após a morte do irmão Joe (Kyle Chandler, ator que divide o mesmo sobrenome com seu personagem) e terá que lidar com a criação do adolescente Patrick (Lucas Hedges).

Ao longo das pouco mais de duas horas de projeção, o diretor Kenneth Lonergan consegue nos levar ao triste mundo vivido por Lee. Em vez de chorar ou gritar, o protagonista vive sua tristeza com o corpo tenso, o olhar cabisbaixo e alguns momentos de carinho, como quando beija o irmão, já morto, ou abraça o sobrinho em um momento de decisão, além dos poucos momentos em que extrapola com violência – nunca contra a família ou amigos. Casey Affleck, de fato, atua de maneira primorosa, e consegue dar a carga dramática necessária ao personagem, passando sempre a impressão de uma bomba prestes a explodir – e quase explode em uma forte cena na delegacia. Michelle Williams também consegue evocar a dor de sua personagem, e é uma pena que não tenha tanto tempo de tela. O jovem Lucas Hedges também consegue equilibrar os momentos dramáticos com as vivências adolescentes do personagem.

Manchester à Beira-Mar, com Casey Affleck, está na corrida para o Oscar

“Manchester à Beira-Mar”, no entanto, é extremamente marcado e pontuado pela trilha sonora e pelos momentos de câmera lenta. Não há sutilezas semelhantes às que podemos ver nas atuações. É possível ver isso quando, no velório de Joe, acompanhamos o olhar de Lee voltar-se para Randi (Williams), sua ex-mulher, e demonstrar incômodo com a presença dela: o que seria um tênue detalhe, para poucos, destaca-se graças ao uso de câmera lenta. E a trilha sonora melancólica, que acompanha todos os momentos de transição, amplifica ainda mais o drama.

Não que o longa seja melodramático ou clichê, mas o fato é que em alguns momentos o silêncio funcionaria melhor – e aqui vale ressaltar o momento em que a trilha sonora fica marcadamente mais leve para, em seguida, nos levar ao momento mais  impactante: o diálogo entre Lee e Randi.

Ora, “Manchester à Beira-Mar” é um filme com personagens extremamente reais.Os diálogos (e Kenneth Lonergan é um excelente roteirista, vide seus trabalhos anteriores) poderiam sair da boca de pessoas reais, que nem sempre falam o que sentem, quase nunca admitem as próprias dores, e podem fazer piadas nos momentos mais inoportunos – e sim, as piadas presentes nos diálogos são hilárias, e não só ajudam a minimizar a tristeza da história, como também permitem valorizar os momentos de lágrimas.

O que nos faz retornar ao diálogo entre os dois, na rua. É possível perceber o quanto nenhum dos dois sabe exatamente o que falar. É possível perceber como o relacionamento dos dois só acabou devido às circunstâncias, e não aos sentimentos. E ainda dá pra perceber o quanto ambos estão diferentes do que eram no passado. Eles gaguejam, falam frases pela metade. E choram. E é o choro sincero que os une, e nos conecta a eles. Em meio à eficiente fotografia gélida, esbranquiçada pela neve, é possível sentir um pouco da dor que eles sentem.

E no fim, ” Manchester à Beira-Mar” é um filme sobre perda, e sobre como é impossível se livrar do passado. Ainda que realista, ele termina com a agridoce sensação de que, mesmo assim, é possível encontrar momentos de felicidade enquanto carregamos os fardos que coletamos no passado.

Manchester à Beira-Mar, com Casey Affleck, está na corrida para o Oscar

 

Leia mais: Filmes na corrida para o Oscar

Gostou? Dê um like e passe adiante!

Leia também:

Apoie o Cinem(ação): contribua com a cultura cinematografica!

  • Críticas cinematográficas
  • Mais de 6 horas de conteúdo inédito por semana
  • Podcasts semanais
  • Grupo no Facebook exclusivo para apoiadores
  • Acompanhamento das nossas conquistas com seu apoio

Abra a porta do armário! Deixe seu comentário: