Crítica: A Criada (Ah-ga-ssi/ The Handmaiden, 2016)

Crítica: A Criada (Ah-ga-ssi/ The Handmaiden, 2016)

A Criada mistura Tarantino, Grande Hotel Budapeste e tudo que 50 Tons de Cinza poderia ser.

Ficha técnica:
Direção: Chan-wook Park
Roteiro: Chan-wook Park, Seo-kyeong Jeong
Elenco: Eun-hyung Jo, Ha-dam Jeong, Ha-na Han, Hae-suk Kim, Jin-woong Jo, Jung-woo Ha, Min-hee Kim, Si-yeon Ha, So-ri Moon, Tae-ri Kim
Nacionalidade e lançamento: Coreia do Sul, 2016 (12 de janeiro de 2017 no Brasil – em pré-estreia uma semana antes)

Sinopse: Coreia do Sul, anos 1930. Durante a ocupação japonesa, a jovem Sookee (Kim Tae-ri) é contratada para trabalhar para uma herdeira nipônica, Hideko (Kim Min-Hee), que leva uma vida isolada ao lado do tio autoritário. Só que Sookee guarda um segredo: ela e um vigarista planejam desposar a herdeira, roubar sua fortuna e trancafiá-la em um sanatório. Tudo corre bem com o plano, até que Sookee aos poucos começa a compreender as motivações de Hideko.

O que tem chegado da Coreia do Sul no Brasil é realmente a nata do cinema mundial. Títulos como O Lamento e Invasão Zumbi são provas do brilho do cinema daquele país. Mesmo sabendo desse potencial, agora com A Criada somos surpreendidos mais uma vez. E surpresa é uma das palavras-chaves aqui. O longa brinca com o público em incontáveis reviravoltas. Em todas você é convidado a interagir e se apaixonar por aquela intrincada trama. Nada mais frustante que uma história que traz elementos externos para a resolução ou mudança de tom. Aqui tudo é dolorosamente intrínseco e, portanto, revigorante.

O mote que poderia ser simples – um golpe dado para roubar uma fortuna – é potencializado pela exímia direção de Chan-wook Park (responsável pela trilogia da vingança, que conta com filmes como Oldboy). O trabalho de Chan-wook na adaptação do livro é notório. O roteiro é sem dúvidas um dos pontos altos aqui, mas em mãos descuidadas a história poderia facilmente descambar. A precisão em cada enquadramento assusta. Lembra, em certo sentido, a simetria que vimos em Grande Hotel Budapeste. A violência naturalizada e o vai e vem narrativo remete ao melhor de Quentin Tarantino. Para encerrar as referências, não me entendam mal, mas há muito de 50 Tons de Cinza em A Criada – melhor dizendo: tudo que 50 Tons não teve coragem de ser (quem se espantou com as peripécias do Sr. Cinza, talvez entre em choque com o que verá aqui).

Quando estiver entrando naquele universo, que se passa no início/meados do século XX no Japão/Coreia, prepare-se para um mundo de traições a todo instante – inclusive você espectador é traído, no melhor dos sentidos, pois quase que pedimos mais e mais traição. Quando pensa que entendeu as motivações dos personagens é jogado para outro lado. A cada momento as coisas são ressignificadas e um objeto, cenário, reação toma outros rumos. A montagem tem um papel fundamental nessas transições. A fluidez com que as coisas são postas em tela deslizam ante os nossos olhos.

mise-en-scène em A Criada é muito acima da média. Desde a fotografia plural, passando pelos objetos em cena (estes com sentido narrativo) e figurinos – ou a ausência deles, e chegando até a movimentação dos atores. Tudo em prol desse jogo de ilusão, provocação e sensualidade. Falando nas interpretações, em especial Kim Tae-Ri e Kim Min-Hee – que fazem, respectivamente, a Sookee e a Hideko, brilham demais. A entrega delas dá conta de acompanhar o ritmo de todo o resto, o que não é nada fácil tendo em vista que a barra aqui estava em um nível elevadíssimo.

A Criada tem quase de 2h30 e, apesar de longo, uma pena que o tempo é tão curto. Eu quero mais daquele cinema. Vale destacar a mistura de gêneros aqui. Há uma dose poderosa de humor, sem se tornar patético, um thriller emocionante e hipnotizante e um romance envolvente, vigoroso e delicado. Com certeza é necessário rever para apreender tudo que está ali. A Criada é cinema em todas as formas. Se tivesse sido lançado em 2016 no Brasil estaria no top da minha lista dos melhores do ano. E possivelmente estará nas cabeças de 2017.

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  • Daniel Lemos Cury

    Acabei de ver, e realmente é uma obra prima. Fiquei muito mais empolgado qdo vi Oldboy (filme q está na lista dos que eu preciso rever), mas dá pra sentir cada cena como milimetricamente calculada.

  • Lucas Albuquerque

    O Tiago Belotti definiu como : “o que o diretor faz com a violência no OldBoy, ele faz com a sensualidade aqui”

  • Acabei de ver e amei, impressionante! Fui enganada todas as vezes!

  • Lucas Albuquerque

    e de uma enganação satisfatória, né? O jeito como o diretor tem a história na mão impressiona mesmo… Valeu pelo comentário, Lais