#RochasEspecial🎤 “ELIS” e a intensidade pacífica de uma cinebiografia.

#RochasEspecial🎤 “ELIS” e a intensidade pacífica de uma cinebiografia.

Elis, do início ao fim. 

É impressionante a força que certos nomes carregam na atemporalidade da sua existência! E l i s marcou as décadas de 60/70, resignificou o que seria denominado como Música Popular Brasileira e, até hoje, nos faz pensar a cerca da representatividade de um artista. Sua grandeza singular expressa in loco na “voz soul” das interpretações simbolizam toda uma geração de brasileiras e brasileiros. Eu como fruto da década de 90, ainda que desprovido de uma memória afetiva mais profunda – como a dos nossos pais -, sempre enxerguei nela, de forma bruta e orgânica, uma referência de viver e sentir em grau máximo! Na arte ou na vida, a Elis Regina Carvalho Costa de inúmeros sinônimos (“Pimentinha”, “Eliscóptero”, “Lilica”) era uma mulher vulcânica, intensa, sem meias verdades.

Sendo assim, fiz questão de ver sua primeira cinebiografia no cinema. Quebrei meu jejum das salas comerciais dos shoppings e conferi a obra na grandeza de som e imagem que a Artista merece. Todo registro biográfico seja ele literário, cinematográfico ou acadêmico é andarilho na perigosa e tênue linha entre a morosidade de um recorte chapa branca e o vigor documental de um olhar honesto, com identidade própria. “Elis”, apesar do trajeto irregular e afoito, equilibra-se nessa corda bamba e cumpre com méritos a responsabilidade de condensar em menos de 2h a história de uma das maiores artistas e a maior cantora do nosso país. Sua efervescente e intensa trajetória ganha na direção de Hugo Prata, tons mais amenos e uma linearidade cronológica excessiva, que destaca-se na boa execução dos momentos-ápices em um registro fidedigno dos ciclos de vida da artista (a ida ao Rio de Janeiro com o pai, a reprovação no teste de elenco, as primeiras apresentações no bar dos sócios Ronaldo Bôscoli e do Luiz Carlos Miéle, até o estouro mundial). Ao optar por um roteiro mais documental, Hugo e sua equipe de roteiristas (Vera Egito e Luiz Bolognesi) engessam a obra em um formato hermético que atenua as inúmeras potencialidades dramáticas da personagem título. E, ainda que o filme tenha momentos de plena emoção e esplendor melancólico, a frieza da sua alvenaria faz com que a história não arrebate, do início ao fim, como Elis o faz!

A produção assinada por Fabio Zavalla é muito bem realizada. Os cenários, figurinos, e objetos de cena reconstituem muito bem a época retratada e compõe o clima tridimensional da narrativa (boêmio-opressor-musical). A trilha sonora formada por grandes clássicos imortalizados na voz de Elis (“Como nossos pais”, “Madalena”, “O Bêbado e o Equilibrista”, “Fascinação”), são um espetáculo à parte. E as passagens musicadas (sua apoteose no I Festival de Música Popular Brasileira da TV Excelsior, em 1965, por exemplo) poderiam ser intercaladas por fotografias e/ou vídeos de arquivo, a fim de reforçar o tom nostálgico.

 

Elis, de dentro pra fora.

Saber que a voz da própria Elis seria mantida causou-me certo receio e estranhamento. Na tela percebemos que a escolha foi inteligente e são nos momentos musicais que estão imbuídas as cargas de maior emoção do filme. Essa sincronia cênica entre corpo e projeção vocal revela o minucioso trabalho feito pela Andreia Horta. Ela conseguiu ir além de uma composição mimética ao construir sua Elis de dentro pra fora. O sorriso, os cacoetes do palco, os trejeitos fora da mainstream, foram adquiridos de forma minuciosa como fruto essencial de um trabalho de pesquisa, entrega e imersão na vida e obra da personagem. Do meio pro final não vemos rastro nem de Alice, nem de Maria Clara, nem da própria Andreia.

 

A grandeza do elenco.  

O elenco é o ponto forte e um dos trunfos do filme. I.) A começar pela rápida, porém preciosa participação do veterano Zé Carlos Machado, muito bem como um pai esperançoso que tenta controlar o ímpeto artístico da única filha. II.) A excelente atuação de Gustavo Machado é um deleite! Na pele do Ronaldo Bôscoli ele foge da caricatura e do estereótipo do sedutor cafajeste, e em nada faz lembrar seus trabalhos anteriores na TV e no Cinema. A forte química entre ele e a Andreia também chama a atenção. III.) Lúcio Mauro Filho, irreconhecível como a lenda do show business Luiz Carlos Miéle mostra um trabalho minucioso de caracterização e códigos corporais, expurgando de vez o fantasma de 13 anos do Tuco na “A Grande Família”. IV.) Júlio Andrade acerta no tom como o multifacetado e esfuziante Lennie Dale V.) Caco Ciocler alia a morosidade que virou marca registrada dos seus personagens, à parcimônia e discrição do César Camargo Mariano. VI.) Em meio a um elenco tarimbado e experiente, os talentos de Rodrigo Pandolfo e Ícaro Silva veem à tona. Nelson Motta e Jair Rodrigues, respectivamente, ainda que em participações pontuais no roteiro, não passam despercebidos e roubam a cena pelo naturalidade e sutileza.

Gustavo Machado na pele do cafajeste sedutor, Ronaldo Bôscoli. 

Essa análise do elenco revela a ausência de outras personagens femininas na narrativa. Além de Elis, personagem central da trama, o filme não trás nenhuma personagem feminina de relevância dramática e fundamental no arco narrativo. O que pode ser causado pela própria biografia da personagem-título, que circulou em um meio musical composto majoritariamente por homens, expondo ainda que de forma involuntária, o machismo que permeia a história da indústria fonográfica.

 

O último ato…

O ciclo biológico da vida reconfigura-se milimetricamente nos passos de Elis. Ela vai ao Rio de Janeiro, começa a (en)cantar público e crítica, explode na música, implode nas ironias da vida, casa-se duas vezes, tem filhos e… morre! Esse último ato não é a sua “Hora da Estrela” como foi a de Macabéa, mas em tom dramático com direito à todos os elementos folhetinescos (câmera lenta, trilha sonora…) a morte precoce da cantora coloca um ponto final explícito em uma cinebiografia cheia de espaços e reticências.

 

“Vivendo e aprendendo a jogar…”

Apesar dos deslizes estruturais e limitações intrínsecas ao recorte histórico pacífico, “Elis”  é um filme que merece ser visto pelo conjunto da obra e pra que a força sobrenatural da sua protagonista reverbere por todas as gerações. Assim como na cena em que já mãe e casada com César Camargo Mariano, Elis diz que é preciso coragem pra sair da zona de conforto e dar uma guinada na carreira, precisamos da sua coragem como inspiração pra seguirmos nosso caminho tendo sempre como ponto de partida a verdade com nossos anseios, conflitos e pra ser quem realmente somos!

 

VIVA ELIS !

Vem com coragem, 2017!

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