Crítica (2): Sing Street

Crítica (2): Sing Street

Ficha técnica:
Direção e Roteiro: John Carney
Elenco:  Feria Walsh-Peelo, Lucy Boynton, Maria Doyle Kennedy, Jack Reynor, Percy Chamburuka , Aidan Gillen, Ian Kenny, Ben Carolan, Mark McKenna.
Nacionalidade e lançamento: Irlanda/Reino Unido/ Estados Unidos, 17 de Março de 2016 (Irlanda)

Sinopse: Na Dublin de 1985, Conor (Ferdia Walsh-Peelo) é um jovem de 14 anos obrigado a mudar de escola devido à difícil condição financeira de seus pais, que também estão com o casamento em crise. Diante das dificuldades, Conor conhece Raphina (Lucy Boynton), e decide montar uma banda de rock para impressioná-la, sem saber que isso teria um impacto muito maior em sua vida.

Sing Street - filme de John Carney

A arte é extremamente poderosa, e pode ser usada tanto para mostrar como nossa realidade é dura e cruel, como também para simplesmente viajarmos para um mundo onde tudo é perfeito, e por alguns minutos ou horas esqueçamos dos problemas reais. Em Sing Street, nova obra do diretor John Carney, a música é usada como reflexão da realidade e também como a distração dos problemas do cotidiano. Além de que, apesar de se passar na década de oitenta, ele é extremamente atual.

A direção de John Carney é extremamente segura e delicada. As transições entre musical e drama são feitas de maneira tão orgânica que mal conseguimos perceber essa troca. E também temos um ótimo trabalho na composição dos cenários, perceba que na casa onde a família de Conor mora, os quartos estão em andares diferentes, para assim representar o distanciamento perante o outro.

Porém, o que mais chama a atenção em Sing Street é o efeito da arte em cada um dos ali representantes. Assim fica muito difícil não nos compadecemos do sonho de Conor em conquistar sua amada, a medida que também torcemos para que seus pais se acertem e parem de brigar. Viramos mais que meros espectadores, nos tornamos amigos de Conor, principalmente para quem já passou pelo processo de separação dos pais – como esse aqui que vos escreve. Em determinado momento do longa os pais de Conor começam a brigar incessantemente e em tons altos, Conor então vai para o quarto do seu irmão e onde também está sua irmã, e os três começam a ouvir música e se divertirem, enquanto as vozes alteradas de seus pais vão sumindo em meio a música alta. Essa cena em específico é intensamente poderosa, a briga dos pais pode ser substituída por uma conta a pagar, ou por trabalhos da faculdade que faltam para fazer, ou mesmo uma discussão com pessoas que amamos, e a música pode dar lugar ao livro, ou um filme, poema talvez, a única certeza é que o efeito é o mesmo. A arte, mais do que qualquer outra coisa, tem essa função de aliviar o mundo real, de nos dar força para continuar a viver, e de nos fazer sonhar.

Sing Street - filme de John Carney

Sonho esse muito bem definido pela personagem da Raphina, onde o longa acerta em não fazê-la sendo simplesmente a amada do personagem principal que deve ser conquistada. Raphina tem muito mais para falar, tem alma e coração. Sua personagem é a personificação do adolescente de classe baixa que mora em um subúrbio qualquer, sonha em ir para Londres ser modelo, ter uma vida digna e ser feliz para sempre. Mas esse sonho é tão distante e muito bem representado pela cena em que Conor mostra para ela onde fica a Inglaterra “A Inglatera fica pra lá, dá para ver daqui quando o tempo está limpo. Depois que para de chover” e os dois apenas visualizam a imensidão do mar e não enxergam mais nada. Essa é a questão, nunca para de chover para eles, a dificuldade em se estar numa situação desfavorável desde quando nasceram é grande demais para sonhos tão distantes da realidade.

Todas essas questões são muito bem trabalhadas por Carney em músicas que dão vida ao filme. Cada composição da banda Sing Street, bem como todas as outras tocadas durante todo o filme, são extensões dos anseios de seus personagens, e fazem parte da estrutura contemplativa. Perceba uma das últimas músicas tocadas no filme é sobre não poder usar sapatos marrons em uma escola católica, onde os padres batem nos alunos e os tratam como se fossem prisioneiros. Uma representação de que as escolas, não só estão paradas no tempo, como também minam toda a criatividade dos alunos a ponto desses mesmos alunos terem que descontar toda essa opressão em colegas mais fracos, transformando a escola em uma cadeia alimentar onde os mais fortes sempre vão se ‘alimentando” dos mais fracos, cada vez mais reprimindo um potencial cidadão que poderia transformar a sociedade.

Já as atuações estão na pedida certa. Ferdia dá vida ao Conor, seu carisma e rosto delicado dão a personalidade ao personagem, e a transformação de seu olhar evasivo em um olhar rebelde e intrusivo é bem realizada. Lucy Boynton compõe Raphina de uma maneira brutalmente eficaz, há uma cena em que está ouvindo uma música e a câmera apenas fica parada em seu rosto, ela tira a maquiagem e começa a chorar. Nesse momento a arte vem como um reflexo da vida, nota como ela está olhando para o espelho e tira a maquiagem do sonho e se enxerga como na realidade, e tudo isso funciona perfeitamente pela sua atuação verdadeira. O destaque maior fica por conta do Jack Reynor, que mesmo fazendo um personagem coadjuvante, transforma seu Brendan (irmão de Conor) em uma espécie de mestre. Seu jeito divertido empolga o espectador, e a medida que vai se aproximando do irmão notamos um olhar triste e alegre ao mesmo tempo, por ver seu irmão fazer tudo que ele deveria ter feito.

Contudo, existem alguns pequenos problemas aqui. Os amigos e companheiros de Banda de Conor são meros fantoches usadas em prol da narrativa, sem ter um arco dramático definido, o que empobrece muito o longa em determinada parte, pois, todos trabalham juntos pelo Conor, mas esquecem de si. Em outra parte, lá pelo terceiro ato, os representantes da banda Sing Street transformam um garoto valentão em um carregador de instrumentos, algo que era para ser divertido. Porém, apenas reforça que o sonho do oprimido, às vezes, é ser o opressor e isso também enfraquece a mensagem que o longa estava querendo passar. Mas não o compromete num todo.

Por fim, Sing Street é um raro filme adolescente. Não floreia e nem torna essa fase da nossa vida uma ilusão de amor e bondade como A Culpa é das Estrelas ou tantos outros filmes o fazem, Sing Street mostra nossa realidade, mostra tudo que temos de bom e ruim, tudo que devemos arriscar em busca de gozar a vida da melhor maneira possível. E, acima de tudo, mostra como a arte pode modificar a vida de alguém.

Escrito por: Will Bongiolo

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