“Feliz Natal” – (2008)

“Feliz Natal” – (2008)

O vento empurra o ar para dentro do quarto alaranjado de uma casa afastada das movimentadas avenidas, ruas e buzinas da cidade grande. O ferro-velho e o suspense marcado pelas cordas do instrumento que delineia nossas percepções ao acompanharmos as imagens sem foco, com foco e levemente escuras, fazem parte do espírito com o qual Selton Mello nos traz, com seu olhar, um tema o qual desvenda no filme: o natal.

Afinal, o que representa o natal? Se pensarmos como cristãos, o natal é como um espelho de uma memória que nunca tivemos, mas como leitores de uma história já estabelecida há séculos, nos parece como algo já do âmbito do conhecido e que se espera algum tipo de comemoração, como se fosse intrínseco à essa época do ano, a tal felicidade. Talvez seja uma felicidade paradoxal, um algo que queremos tanto vivenciar, porém na verdade vivenciamos parcelas desse todo tanto procurado. E mesmo que um vivenciar não por inteiro, mesmo que nunca num êxtase e ápice do que se pode sentir, o natal, nesse parecer melancólico e nada feliz, condiz com muitas realidades do mundo, visto que podemos fazer conexões diversas quanto ao modo pelo qual vivemos esse “feliz natal” e o que engloba esse sentimento, como por exemplo, os próprios presentes, a própria alegria e o único sorriso quando vemos aquele embrulho enrolado por uma fita vermelha e que nos dá aquela esperança momentânea de felicidade. O cenário do comprado e do vendido, então, nada mais é do que um ínterim necessário para que essa realidade exista e sobreponha dores, perdas e lutos, é como um comemorar ou memorar com, ou seja, trazer à lembrança ou o histórico cristão ou a tal felicidade que nunca chega mas que um dia esteve ali naquela mesa de jantar da sala.

Por quê, então, não festar na festa? O convite está feito, os pratos estão cobertos de fartura, os copos manchados daquele líquido dionisíaco, as risadas, os abraços; tudo isso sim, faz parte de um reflexo de coisas boas, ainda mais ao lado de quem se ama. Contudo, o vazio do corredor escuro com luzes que piscam, o andar sorrateiro daquele viajante que um dia viveu naquele espaço, neste caso, fazem parte daquele assobio do vento, àquele que soprou nas janelas de um quarto sem luz e de cor laranja. O reencontro é sempre um encontrar-se de novo, mas num tempo diferente. Os olhares mudam, as sentenças do cumprimento se distanciam umas das outras, as lembranças daquele outro homem que um dia esteve ali, nesse dia de natal, voltam como se daquela sala festiva jamais tivesse saído.

Os beijos bêbados da mãe sentimental e carente, trazem para o filho desamparado e acompanhado da solidão algo de troca e de uma alegria repentina e fugaz, já o pai preenche seu peito de dor e silêncio.

– Oi pai! – (Silêncio).

– Sai da minha frente. Filho da puta.

– Pai. – (Choro).

A visita dá vida ao quanto de dor e de afastamento dos que ali estão sentem um pelo outro. Irmãos com muitos problemas, mas que nunca conversaram ou trabalharam em prol de uma solução. Um casal de pais que na verdade estão fora do dentro, este que não existe mais. Uma vez por ano, por quê não? O espírito natalino preenche esse estado natural do (re)encontro anual da família que de fato só tem a distância como amor. Nada mais próximo do desprazer e da falta. A festa, que era pra ser sinônimo de festejar, acaba se tornando em algo real e vital do não-desejo, do não-amor, e pelo contrário, no ódio, no rancor e de más memórias que nunca se foram. É como uma volta no tempo, um viajar para onde nunca se foi embora, porém, ao se verem de novo, o presente é que fica distante e ilusório. O passado, aqui, é o presente.

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