Crítica: A Chegada

Crítica: A Chegada

A Chegada , mais novo trabalho de Dennis Villeneuve, é uma ficção científica que, como as melhores do gênero, discute temas inerentes à vida, morte e a fragilidade do tempo

Ficha técnica:

Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Eric Heisserer
Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2016 (24 de novembro de 2016 no Brasil)

Sinopse: Quando misteriosas naves espaciais aterrissam em todo o mundo, uma equipe de elite – liderada pela linguista Louise Banks – é reunida para investigar. Enquanto a humanidade hesita à beira de uma guerra mundial, Banks e sua equipe correm contra o tempo em busca de respostas – e para encontrá-las, ela terá de se arriscar colocando em perigo a própria vida e, muito possivelmente, a do resto da humanidade.

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Em determinado momento de A Chegada, a linguista Louise Banks, interpretada por Amy Adams, se pergunta: “se você pudesse ver sua vida inteira bem na sua frente, você mudaria as coisas?” O que vemos nas próximas horas é, mais do que uma ficção científica interessante, uma meditação sobre a vida, sacrifício, percepção e fragilidade do tempo.

Razão

O diretor Dennis Villeneuve tem se provado cada vez mais como um dos melhores diretores trabalhando na atualidade. Com uma filmografia recente invejável, os trabalhos do cineasta possuem um apuro técnico impressionante, tornando-o eficiente em realizar obras repletas de tensão, cinismo e o mais notável: de uma racionalidade imensa, mesmo em seu cinema sensorial.

Desta forma, é surpreendente que A Chegada seja uma obra extremamente sentimental, e tenha como maior triunfo justamente seu elemento humano, abordando de forma intimista e sensível questões filosóficas das mais interessantes e inerentes à uma boa ficção científica.

Amy Adams (right) as Louise Banks in ARRIVAL by Paramount Pictures

Baseado no conto A História de Sua Vida, de Ted Chiang (que está presente no livro A História de Sua Vida e Outros Contos lançado por aqui pela editora Intrínseca), o filme gira em torno de Louise Banks (Amy Adams), uma prestigiada linguista que trabalha como professora em uma universidade, possuindo uma tristeza quase que característica de si mesma. Quando doze naves côncavas aparecem sem aviso, num dia qualquer, pairando em doze lugares diferentes ao redor do mundo, a especialista em comunicação é convocada pelo coronel Weber (Forest Whitaker) para tentar se comunicar com os tais extraterrestres, contando também com a ajuda de Ian Donnelly (Jeremy Renner), um cientista também prestigiado. Juntos, eles devem correr contra o tempo em meio ao pânico coletivo, jogos políticos e diferenças culturais para responder a pergunta estampada nos pôsteres de divulgação: por que eles estão aqui?

Começando a narrativa de forma extremamente climática, Villeneuve vai lentamente nos colocando – ou melhor, nos permitindo – entrar na vida de Louise. Mergulhando-a desde a primeira cena em um universo melancólico e de tons acinzentados, evidenciados pela atmosférica fotografia de Bradford Young, Louise surge numa sala escura e vazia contemplando o mundo através de uma barreira de vidro. São as janelas de sua casa, imensas, que revelam apenas a vista para o mar e a praia, longe do mundo urbano, e ressaltam o isolamento da personagem, fisicamente e emocionalmente (e o design de produção de Patrice Vermette merece aplausos por escolhas como estas). O céu, sempre nublado. Villeneuve estabelece muito bem o tom do filme já no início, e a imagem de Louise tentando compreender o que se passa “do outro lado do vidro” será uma imagem recorrente em A Chegada.

ARRIVAL

A ficção científica sempre foi um gênero que incitou – mais do que discussões científicas – questionamentos filosóficos e sociais. Seus enredos, muitas vezes centrados em torno do contato com “seres maiores” e do homem se relacionando com o universo seja em viagens interdimensionais, no contato com esse ou na transcendência do espírito, são apenas pontos de partida para as questões mais básicas e fundamentais da humanidade: por que estamos aqui? Há algum sentido na vida? Estamos sozinhos no universo (ou talvez: estamos simplesmente sozinhos?)?

Compreensão

É bom constatar então que Villeneuve fez seu dever de casa, abordando com sensibilidade todas essas questões e até mais, com alegorias das mais óbvias (a teóloga, quando algumas pessoas veem caráter divino no fato de serem doze naves, sugerindo uma referência aos doze apóstolos de Jesus Cristo), até as mais complexas, propondo questionamentos que discutem a filosofia das linguagens e da comunicação. O que é comunicação se não uma interpretação que nós mesmos fazemos através de nossas próprias percepções e experiências de vida, afinal? Desta forma, é fascinante ver as tentativas de comunicação do grupo liderado por Louise com os alienígenas, no qual qualquer palavra interpretada de forma errada pode passar um sentido completamente diferente para ambas as partes. O fascínio vem também pela forma com que os aliens se comunicam, com dialetos circulares que refletem a forma cíclica e alinear com que os mesmos enxergam o tempo. É um conto sobre compreensão e comunicação, no final das contas; compreensão do próximo , do tempo, do amor.

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Com momentos de extrema tensão característicos da filmografia do diretor, a narrativa possui uma atmosfera angustiante, auxiliada pela magnífica trilha sonora orquestrada por Jóhann Jóhannsson, colaborador habitual de Villeneuve. A cena do primeiro contato com os extraterrestres – uma aula de cinema – é construída com uma tensão crescente que deixa o espectador inquieto e até mesmo apavorado.

E por falar em “habitual”, muitos dos elementos recorrentes na filmografia do cineasta são aperfeiçoados aqui, como eventos acontecendo simultaneamente e em tempos diferentes, da forma que o mesmo já havia feito em obras como o excelente O Homem Duplicado. A Louise de Amy Adams ecoa a personagem vivida por Emily Blunt em Sicario, e seu nervosismo latente precedendo o primeiro contato reflete o de Blunt na famosa cena do túnel naquela obra.

ARRIVAL

Amy Adams e Jeremy Renner em cena de A Chegada

E já que citei Adams, vale mencionar a força de sua performance, que reflete todo o peso e bagagem que a personagem carrega e passa a carregar. Renner é outro destaque; conhecido pelos tipos piadistas que sempre interpreta, o ator traz um pouco desta leveza ao papel de Ian, e é reconfortante e triste ao mesmo tempo ver o cientista se esforçando para não transparecer seu nervosismo apenas para confortar Louise. É uma performance sutil de Renner. Forest Whitaker confere presença ao coronel Weber, nunca soando excessivamente cartunesco como a maioria dos militares neste tipo de filme. E mesmo após ter mencionado durante esta análise a preciosidade técnica do filme, o maior triunfo desta obra reside mesmo em seus momentos humanos e pessoais.

Emoção

Villeneuve sempre retratou em suas obras o mundo como ele é: cínico, cruel e doloroso. Evitando ao máximo partir para o melodrama, é um diretor puramente racional. Porém, esse não comete os mesmos erros de Christopher Nolan (outro diretor extremamente lógico em sua abordagem narrativa) em Interestelar, com suas explicações excessivas e manipulações óbvias para emocionar e provocar choro. Entendendo que o espectador deve se envolver com seus protagonistas, Villeneuve busca a emoção nos menores detalhes… da vida.

A Chegada

Se em Interestelar nos afeiçoávamos com Cooper, o protagonista, por nos identificarmos com a relação mais terna de todas: a fraternal; em A Chegada, Villeneuve vai mais longe. Nos apegamos às mesmas relações, mas entendemos o porquê desses sentimentos acontecerem. O cineasta busca as raízes dessas emoções. 

No fim, em meio à situações bombásticas e seres de outro mundo, incitações a discussões filosóficas num mundo frio e realista, de todo o perfeccionismo técnico de Dennis Villeneuve e companhia, somos lembrados de que no fundo este conto é sobre uma mãe e uma filha, uma esposa e um marido, sobre as relações mais humanas e sentimentos mais puros que poderiam existir. A Chegada é uma história de sacrifício, humanidade e compreensão – como toda boa ficção científica deve ser.

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