Crítica: Elis (2016)

Crítica: Elis (2016)

Elis não é um filme à altura da cantora….

Ficha técnica:
Direção: Hugo Prata
Roteiro: Luiz Bolognesi, Vera Egito, Hugo Prata
Elenco:  Andréia Horta, Lúcio Mauro Filho, Gustavo Machado, Ícaro Silva, Caco Ciocler, Julio Andrade
Nacionalidade e lançamento: Brasil, 24 de novembro de 2016.

Sinopse: cinebiografia de uma das maiores artistas brasileiras de todos os tempos, a gaúcha Elis Regina Carvalho Costa. Acompanhando desde o começo do sucesso da cantora até o precoce falecimento.

Elis

A voz de Elis Regina acompanha gerações. O sucesso da “pimentinha” nos anos 60/70 repercute até hoje. Não raro vemos especialistas a colocarem como a maior cantora nacional. O longa Elis se propõe a nos conduzir por quase duas décadas da vida da artista, entre 1964 e 1981. Vemos o início da carreira, a participação no festival da TV Excelsior, o sucesso internacional, a questão com a ditadura, além dos dois casamentos e filhos.

Abir o filme com “Como Nossos Pais” foi um baita acerto. Pega em cheio os fãs e já marca a potência vocal e emocional da personagem. Infelizmente a cena inicial foi um dos raros momentos que tiveram a sutileza e vigor que Elis merecia. A partir daí o que vemos é uma narrativa atropelada e com algumas opções bem questionáveis.

O pai de Elis é apresentado exclusivamente como uma figura que só pensa em dinheiro. Toda cena que ele aparece há esse viés. Independente de isso refletir ou não a personalidade de Romeu Costa, tal elemento fica redundante e maniqueísta. E a figura paterna some ao longo do filme (a materna e outros familiares sequer aparecem). Basicamente foi: “temos que mostrar o pai, vamos jogar aqui no começo de qualquer jeito”. Problema, aliás, presente durante toda a expressão cinematográfica.

Elis

O que fica bem marcado é a personalidade abusada e destemida da cantora. A todo momento Elis se mostra uma mulher bem a frente do tempo dela. E bate de frente com quem quer fosse. O encontro com Luís Carlos Miele (bem interpretado por Lúcio Mauro Filho) mostra autoconfiança e o embate feroz com o futuro marido Ronaldo Bôscoli (Gustavo Machado) são exemplos. A transição entre Bossa Nova (que tinha como ícone Nara Leão) e MPB e os futuros problemas com a Jovem Guarda marca também os movimentos musicais da época e como Elis se posicionara.

Dado o contexto político, a ditadura militar, há também destaque para como ela se relacionou com os militares. Após um discurso inflamado na França, onde ela se posiciona veemente contra a ditadura (em uma cena que fica esquista por conta da questão da língua), ela é coagida pelos governantes a cantar nas Olimpíadas do Exército. O que provocou uma charge do Henfil que comparou o gesto a cantar para Hitler, ocasionando um desconforto entre Elis e o cartunista. Posteriormente eles viriam a se tornar amigos e Betinho, irmão de Henfil, a ser homenageado em um dos maiores sucessos da carreira dela, a canção “O Bêbado e A Equilibrista”.

O grande problema aqui é como a montagem opta por dar uma agilidade questionável aos fatos. Falta inclusive um certo contexto temporal. O longa não se detém nos momentos o que faz com que a emoção seja preterida. Percebemos um sentido lógico nos acontecimentos, mas eles ficam muito episódicos. Parece que os principais pontos da biografia dela foram pinçados  e postos em tela de maneira burocrática. O festival que Elis ganhara com o sucesso “Arrastão” tem bem menos tempo em tela que merecia. A parceria com Jair Rodrigues (Ícaro Silva) cai no mesmo problema. Vale o comentário de que, apesar de breve, a interpretação de Ícaro como Jair está muito boa. A movimentação na dança, a fala e a postura são dignas de elogio.

Confira nosso podcast onde batemos um papo com o ator. PODCAST CINEM(AÇÃO) #165: CARREIRA E ARTE – ÍCARO SILVA

Elis icaro_silva

Falando em atuação,  Andréia Horta usa com constância o indefectível sorriso de Elis, traço que de fato não poderia ficar de fora. Contudo a atriz se apoia nesse maneirismo por mais vezes que o necessário. Apesar dela emular de forma eficaz a movimentação da cantora, a interpretação fica cansativa e pode até afastar o público. Todavia, o que é mais problemático, e claro não é culpa da Andréia, foi a opção de usar a voz da Elis nas apresentações musicais. Ironicamente a melhor coisa em uma cinebiografia musical, as músicas, foi a que mais me tirou do filme. A voz não combinava e mesmo a dublagem estando síncrona, havia um certo descompasso incômodo.

O filme Elis é daqueles casos que a personagem é mais interessante que o filme. Lógico que com um outro objetivo, já que era um documentário, Chico Buarque foi melhor contemplado este ano em Chico – um Artista Brasileiro. Tirando a canção inicial, não consegui sentir empatia pelo que via em tela. O final é o ápice da mão pesada do diretor. Na tentativa de dar mais emoção, ele usa de um dos recurso piegas. Elis não é um desastre cinematográfico (quase consegue tal feito), mas se boicota a todo instante e considerando o material que tinha em mãos poderia entregar muito mais.

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