#ROCHASEMCORES🌈 | NO PALCO | – ENTREVISTA: CARLOS F. BARROS & VITOR DE OLIVEIRA, AUTORES DA PEÇA “BRUTA FLOR”.

#ROCHASEMCORES🌈 | NO PALCO | – ENTREVISTA: CARLOS F. BARROS & VITOR DE OLIVEIRA, AUTORES DA PEÇA “BRUTA FLOR”.

Ah, bruta flor do querer

Ah, bruta flor, bruta flor…

 

Hoje, às 21:30h, na Sala Irene Ravache do Teatro Raposo Shopping em São Paulo, estreia “Bruta Flor”. O espetáculo teatral mergulha fundo nas questões da identidade de gênero tendo a espiritualidade como pano da paradoxal teia das relações humanas. Com independência e liberdade, a peça endossa o debate em torno da homo e da bissexualidade e provoca o público a fazer uma reflexão do amor em sua mais misteriosa e bruta essência, e a pensar sobre os casos de homofobia cada vez mais naturalizados e impunes na nossa sociedade.

O texto da peça é assinado pelos autores Carlos Fernando Barros e Vitor de Oliveira, a  direção por Marcio Rosario e o elenco é formado por três talentos da nova geração: Léo Rosa, Lidi Lisboa e Pedro Lemos.

A coluna #RochasEmCores🌈 adentrará nos palcos e fará um cobertura especial do espetáculo, entrevistando os autores, o elenco e a direção nas 03 (três) sextas-feiras do mês de novembro (dias 11, 18 e 25).

 

Pra iniciar os trabalhos, a #RochasEmCores🌈 | no palco | apresenta:

CARLOS FERNANDO BARROS & VITOR DE OLIVEIRA.

 

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1.) “Bruta Flor” é um espetáculo teatral que aborda a homo e a bissexualidade por um viés espiritual ainda pouco visto nos palcos. Conte-nos um pouco da linha dramatúrgica e da estética cênica da peça. Como foram foi o processo de criação à quatro mãos?

CARLOS – Desde o início queríamos abordar temas como: homofobia, homo e bissexualidade, aceitação, machismo e cruzar estes temas com o espiritismo. Acredito que possa ser uma nova abordagem. Sabia, desde o início, que “Bruta Flor” é uma história de personagem e, portanto, iniciamos o trabalho definindo quem era realmente Lucas e Miguel. Queríamos mostrar, da forma mais real possível, o tormento de Lucas, dividido entre Simone e Miguel. Ele luta em aceitar sua sexualidade, enquanto Miguel resolveu isto já na adolescência. A dramaturgia se completa com o filho do Lucas que a Simone espera. Trabalhar com o Vitor de Oliveira é uma delícia. Temos afinidades de ideias e através de nossas conversas, geralmente à noite, vamos montando o texto. O trabalho flui facilmente. Na hora de executar o trabalho (escrever) temos métodos diferentes, mas nos respeitamos. Vitor escreve de madrugada e eu continuo a escrever pela manhã. À tarde, afinamos o que escrevemos.

VITOR – Essa foi a encomenda, uma história que abordasse a homossexualidade por um viés espiritual. Não sou religioso, tampouco conhecedor profundo de alguma doutrina, por isso a espiritualidade ficou mais como pano de fundo e procuramos enfocar mais nas relações humanas entre os personagens, na relação de causa e consequência de nossos atos. O processo de criação junto com o Carlos é bastante tranquilo, porque, além de sermos casados e termos uma sintonia natural, nossos horários são diferentes. Ele é do dia e eu sou da noite, ou seja, eu escrevo de madrugada e vou dormir. Ela acorda e continua do ponto em que parei. Quando acordo, discutimos o que foi escrito e por aí vai. Escrevemos esse texto em menos de uma semana, o trabalho fluiu de maneira muito natural, enfocando, muitas vezes, nossas próprias vivências.

 

2.) A diversidade de gênero vem sendo discutida com maior frequência nas grandes mídias e produtoras de conteúdo (tv, cinema, internet, revistas e jornais de grande circulação etc.) Existe alguma diferença quando esse debate ocorre no calor ao vivo e na simbiose imediata com a plateia, características singulares do teatro? Nele a criação é mais livre e independente do que nos outros veículos?

CARLOS – Sim, o teatro é um veículo que tem sua peculiaridade. As propostas são imediatamente vistas e sentidas pelo público que reage muito rapidamente. Talvez por isto, se permite uma maior diversidade na abordagem de temas fortes como este. Apesar disso, o teatro atinge muito menos público do que os outros veículos. A velocidade no teatro também é vagarosa, e se dá, basicamente, pelo boca-a-boca. Apesar desses fatos, acho que o teatro permite uma maior reflexão dos temas abordados, exatamente porque pode ser degustado lentamente. Então, este fato alimenta a abordagem mais livre e independente de temas fortes, como o que ocorre em “Bruta Flor”. 

VITOR – Sem dúvida, é mais livre porque tem um público segmentado, ao contrário da TV aberta (e em alguns casos, TV fechada) em que temos que falar para um público muito mais heterogêneo. Mas nem por isso, nosso texto é hermético. Não sei fazer aquele teatro conceitual, gosto de me comunicar com a plateia e alcançar o máximo de pessoas possível. Embora tenhamos tido liberdade total na criação e a proposta da peça seja bastante ousada, o texto é acessível e se comunica com todo tipo de público. Quanto à reação, vamos aguardar a estreia. Estamos ansiosos e esperamos que o texto possa tocar o coração das pessoas.

 

3.) A peça contém cenas de nudez. O sexo é uma ação biológica vital e inerente às relações humanas. Como vocês veem o puritanismo e a condenação ao nu no teatro e nas demais expressões artísticas?

CARLOS – Vejo isto como natural e não há como não ter, em abordagem deste tipo, uma representação sexual. Na peça, o sexo é visto de forma sugerida e em alguns momentos os gestos são fortes, mas nunca visto diretamente. “Bruta Flor” não é uma peça apelativa, onde o sexo é gratuito. Sou totalmente a favor do sexo no teatro e nas expressões artística, pois isto é uma ação natural e só condenada por quem tem uma visão hipócrita da vida. Há de se cuidar para que este fato não seja uma expressão de vulgaridade.

VITOR – Como você mesmo disse, mesmo inerente às relações humanas, a sexualidade sempre foi um tabu em nossa civilização judaico-cristã. E estamos vivendo um momento particularmente difícil, com o avanço cada vez mais rápido das forças retrógradas e conservadoras, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Mas ao mesmo tempo, também experimentamos uma liberdade poucas vezes vista, daí a reação de parte da sociedade. As cenas de nudez do espetáculo não são gratuitas. Ao contrário, são totalmente pertinentes e necessárias ao enredo, mas nossa intenção é mostrar algo belo, poético, nunca apelativo. Estamos contando uma história de amor. E amor independe de gênero. Queremos dar voz a personagens que, muitas vezes, a caretice e o puritanismo, não permitem que cheguem ao grande público.

 

4.) A peça é composta por um elenco jovem e talentoso que pode ser visto atualmente na TV, Léo Rosa e Lidi Lisboa (Escrava Mãe, Record) e Pedro Lemos (Chiquititas, SBT). Como foi a escolha do elenco? Vocês priorizaram as características da criação de cada personagem ou existiu a necessidade de fazer alguma adaptação nos perfis e na história?

CARLOS – A peça foi uma encomenda do Márcio Rosário e ele, eu e o Vitor conversamos muito sobre todo o processo e em especial sobre a escalação do elenco. É verdade que atores famosos levam mais público ao teatro e principalmente os editais públicos quase que exigem algum nome “famoso”. Nossa produção é independente e só contamos com apoios e então ficamos mais livres para esta escolha. Claro que levamos em conta o perfil dos personagens quando fizemos os convites e tivemos a sorte do Léo Rosa, Lidi Lisboa e Pedro Lemos gostarem e aceitarem trabalhar o texto.  Não foi preciso fazer adaptações nos personagens para os atores selecionados e só foram feitos pequenos ajustes na história. O texto estava praticamente pronto.

VITOR – O elenco foi escolhido de acordo com as características dos personagens. Do contrário, não teria sentido. Quem escolheu o elenco foi o diretor e produtor, Marcio Rosario, mas sempre em diálogo constante conosco. Tenho acompanhado cada vez menos os ensaios de meus textos para interferir o menos possível no trabalho dos profissionais, mas posso afirmar que o elenco é um grande acerto. Além de talentosos, compraram totalmente a proposta do espetáculo e mergulharam de cabeça no projeto com muita verdade e vontade. Acredito que é isso que faz a diferença: o comprometimento com o trabalho.

 

5.) “A obra propõe muitas reflexões”. Essa é uma das frases que compõem o material de divulgação do espetáculo. Em tempos cada vez mais sombrios de intolerância ligada à questões culturais, religiosas e sexuais, o desrespeito e a barbárie tomam forma e ganham as ruas acompanhados de um discurso visgoso de ódio. Nesse sentido, como podemos repensar os caminhos da humanidade a partir de Bruta Flor?

CARLOS – Na sociedade, o avanço das conquistas nessa direção são em ciclos. Nós avançamos bem, retrocedemos um pouco e tornamos a avançar. E assim vamos em frente. Como isso não se dá da mesma forma, como um todo, convivemos em uma mistura de sentimentos e atitudes. Embora se viva em uma sociedade ainda bastante retrógrada, vemos situações onde vislumbramos avanços. Então, “Bruta Flor”, ao abordar estas questões, sem maquiagem e sem véu, pode tocar fundo nas pessoas. Possivelmente as fará entrar em reflexão e espero atitudes, desde aplausos até algumas pessoas se retirando do teatro. A peça, em sua divulgação, é apresentada com o tema LGBT e é esse público que esperamos em sua maioria, além dos chamados “gay friendly” e desavisados, e claro, apreciadores do bom teatro, independente de sua temática.

VITOR – Acreditamos que não há outro caminho possível para a humanidade, senão o amor. O amor, o respeito e a liberdade de se amar e se relacionar com quem quisermos. Procuramos falar de homofobia sob uma ótica não-maniqueísta. Todos os personagens têm uma dimensão humana, não existe herói ou vilão. Quando pensamos numa pessoa homofóbica, logo associamos a imagem daquelas pessoas caricatas que manifestam abertamente sua homofobia, como alguns políticos populistas de extrema direita e pastores midiáticos oportunistas que nem merecem ser citados aqui. Mas a homofobia é mais profunda do que isso. Ela está entranhada em nossa sociedade, faz parte da nossa cultura, assim como o machismo e o racismo. O que mais tem por aí é gente dizendo que não é homofóbica, mas é contra casamento gay, contra adoção de crianças por casais homossexuais e torce o nariz quando vê duas pessoas do mesmo sexo se beijando nas ruas ou na televisão. As pessoas não têm “nada contra”, desde que os gays continuem no armário, escondendo sua sexualidade e fingindo viverem uma vida que não é a deles. E, por incrível que pareça, muitos gays também praticam a homofobia, no afã que buscarem aceitação da família e da sociedade em geral. Nesse sentido, mostramos que o homofóbico, muitas vezes, também é vítima desse pensamento vigente em nossa sociedade e , em muitos casos, reprimem seu próprio desejo.  E essa repressão começa desde a infância, em várias instâncias da sociedade (família, escola, trabalho, religião, círculo de amizades) e, em muitos casos, geram consequências trágicas. Acho que conseguimos discutir isso em nosso texto.

 

6.) O triângulo amoroso da peça é composto por Lucas (Léo Rosa), Simone (Lidi Lisboa) e Miguel (Pedro Lemos). Mostrar a relação amorosa entre uma mulher e dois homens tem algum objetivo dramatúrgico e ideológico a mais? O hibridismo de gênero das personagens corrobora para uma desmistificação do preconceito em torno das relações à três? 

CARLOS – Lucas fica dividido entre Miguel (o novo, o que traz ebulição nos seus sentimentos, o seu verdadeiro eu) e Simone (o seu conforto, a manutenção do seu “status quo”, sua capa de se mostrar para a sociedade e a para si mesmo).  A chegada do Miguel desestabiliza o machista Lucas, que vê sua verdadeira sexualidade aflorar. O centro do triângulo é o Lucas. Simone conhece Miguel no passado, mas não sabe de sua existência naquele momento. A peça é a história do Lucas e do Miguel. Para complicar o Lucas, Simone é uma mulher bem resolvida e Miguel sabe o que quer desde muito cedo. 

VITOR – Na verdade, não há uma relação a três. Os personagens Miguel (Pedro Lemos) e Simone (Lidi Lisboa)  se relacionam com Lucas (Léo Rosa), mas em nenhum momento chegam a se relacionar entre si. O objetivo dramatúrgico é, justamente, abordar esse conflito de Lucas, dividido entre o casamento tradicional com Simone e a paixão arrebatadora que sente por Miguel e que tenta reprimir a todo custo. A única coisa que queremos desmitificar é que o amor é somente possível entre um homem e uma mulher. A “bruta flor do querer”, parafraseando Caetano, desconhece fronteiras, convenções sociais e imposições religiosas. O ideal seria que todos fôssemos livres para amar e seguir nossos próprios desejos.

 

Uma estreia linda e iluminada procês ❤️ #MERDA!

Galera de Sampa, se joguem!

 

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Serviço: “Bruta Flor”

Onde: Teatro Raposo Shopping – Sala Irene Ravache

Quando: Sexta (21:30h), Sábado (22h) e Domingo (20:30h)

Espetáculo de: Carlos Fernando Barros e Vitor de Oliveira

Com: Léo Rosa, Lidi Lisboa e Pedro Lemos

Direção: Marcio Rosário

Cenário e Figurino: Maureen Miranda

Música: Cida Moreira

Produção Executiva: Marina Trindade

Coordenação de Produção e Palco: Rogério Queiroz

Expressão Corporal: Rodrigo Eloi Leão

Preparação Vocal: Marcelo Boffat

Maquiagem e Cabelos: Eli Rodrigues

Assessoria de Imprensa: Renato Fernandes

Mídias Sociais: Angel Jackson

Realização: Três Tons Visuais

Fotografia: Ronaldo Gutierrez

Fotos da Montagem: Rogério Queiroz

 

Próxima #RochasEmCores🌈 | no palco |

Dia 18/11 (sexta-feira)

Entrevista com o elenco de #BrutaFlor🌷

Léo Rosa, Lidi Lisboa e Pedro Lemos

AGUARDEM ! 

 

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