Crítica: Deixe-me Viver (2016)

Crítica: Deixe-me Viver (2016)

Deixe-me Viver aborda o aborto sob o prisma espírita da pior maneira possível.

Ficha técnica:
Direção e roteiro: Clóvis Vieira
Elenco: Rocco Pitanga, Mário Cardoso, Sabrina Petraglia, Renata Sayuri
Nacionalidade e lançamento: Brasil, 13 de outubro de 2016

Sinopse: Luiz é um espírito de luz que foi incumbido de escrever um livro sobre aborto. Para ensinar para os encarnados os malefícios das práticas. Ele passará por aprendizados e experiências no mundo espiritual para concluir essa empreitada.

Deixe-me Viver

Este texto não se posicionará contra ou a favor da doutrina espírita ou da prática do aborto. O objetivo aqui é analisar apenas o filme. Caso você seja espírita e/ou contra o aborto pense de modo sincero se o que vê em tela é um bom filme ou se só está te agradando por ter ideias compatíveis contigo. Vale ressaltar que tivemos bons longas com a temática espírita. Amor Além da Vida e Chico Xavier são exemplos.

Em Deixe-me Viver há o objetivo de passar uma mensagem, mas ela é apenas panfletária, não há uma discussão mínima que fuja do mais raso maniqueísmo e servindo apenas para os integrantes da doutrina que não queiram ver um filme – mas só ter uma aula. Além disso os responsáveis pelo longa esqueceram todo e qualquer apuro técnico e condições cinematográficas mínimas.

Deixe-me Viver abre explicando que os personagens do livro foram alterados e que a história foi atualizada para melhor desempenho na expressão cinematográfica. Ou seja, alguém achou importante explicar para o público que aquilo ali era um filme e não um livro, parece que as pessoas não podem reparar nisso sozinhas. E esse é um dos problemas que perpassa toda a obra. Praticamente todas as referências visuais são seguidas ou acompanhadas de explicações redundantes para o que acabamos de ver. Tem alguém se contorcendo no chão e vem um personagem e diz: “ele está sofrendo…” ou então uma série de pontos de luz branca descem do céu em direção à Terra e o nosso protagonista declara: “os espíritos de luz estão vindo em peso”.

Há um grande problema (sim, outro) de redundância na trama. A crítica às clínicas de aborto ou às pessoas que só pensam em bens materiais são repetidas inúmeras vezes. Em uma tentativa de convencer pelo cansaço e com zero preocupação narrativa. As encenações (chamarei assim por falta de palavra melhor, pois ela são quase aquelas simulações à la linha direta ou teste de fidelidade) tem um texto pobre em todos os aspectos. Quem conhece a visão espírita vai antever quase todas as cenas, ou seja, nesse sentido nem para o público-alvo o filme funciona.

O som de Deixe-me Viver é criminoso. A trilha vem carregada o tempo inteiro dos mais simplórios acordes para denotar tensão, alegria, medo … em uma tentativa de ditar o sentimento que a cena quer passar, novamente o público não é capaz de decidir sozinho o que aquele instante quer transparecer. Tão ruim quanto, está a mixagem. Pareceu ser uma boa ideia alguns personagens, como o do Rocco Pitanga, ter uma voz retumbante que reverbera. Recurso piegas e mal utilizado.

Deixe-me Viver

Não há uma direção de atores, e não atores, aqui. Já vi produções escolares com desempenho melhor nesse quesito. O diretor falou: “faça cara de X” e não houve a mínima preocupação em corrigir ou melhor orientar. A primeira cena já causa um desconforto ao ver movimentos completamente tortos e amadores. Tal desastre é presente em quase todos os instantes. Nos discursos, por exemplo, vemos uma marcação compassada também fora do tom e falsa.

Essa falsidade interpretativa se dá, entre outros motivos, graças ao fundo verde que os atores são submetidos quase que 100% do filme. Deixe-me Viver nos trouxe os piores efeitos que eu já presenciei no cinema. Algo visto em um vídeo game da década de 90 não apresenta uma coisa tão lamentável. Chega a ser constrangedor ver os atores passando de forma errada no meio dos ambientes vazios que eles gravaram originalmente. Há um momento que um parque é utilizado. Gramado verde e belo, sendo uma locação muito bem-vinda. Se não havia dinheiro ou capacidade para criar no computador os ambientes por que então não utilizou mais os cenários reais? Às vezes (quase sempre) menos é mais. Tem uma cena de não sei quantos minutos que os atores contemplam o céu, de CGI, observando o sol se pôr. Falta muito ali para chegar no ruim.

Deixe-me Viver talvez seja usado em Centros Espíritas para evangelizar os seguidores da doutrina ou para apresentar as consequências do aborto para os espíritas. Eu penso que se eu vou produzir um material demonstrar o meu ponto de vista vou querer fazê-lo da melhor maneira e não com esse desleixo mostrado. As opções para emular o plano espiritual foram todas cinematograficamente erradas.

Pegue a mensagem de Deus Não Está Morto (aqui voltada para os espíritas), com os efeitos de Deuses do Egito (com menos orçamento) e com a direção, atuação e também mensagem de Doonby – Todos tem o direito de Viver. Já o som eu comparo com: [escolha o gênero musical que menos aprecie] e veja um show de uma banda recém formada e com todos os instrumentos desafinados. Junto tudo isso e temos o nosso filme… possivelmente o pior do ano e um dos piores que eu já vi.

 

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  • Lucas Albuquerque

    retifico a minha crítica: esse não é um dos piores filmes que já vi, mas sim o pior… não quis pegar pesado à época, mas hoje já consigo afirmar isso