Crítica: Romance à Francesa

Crítica: Romance à Francesa

Romance à Francesa tenta emular Woody Allen, mas acaba realizando um melodrama com personagens aborrecidos

Ficha técnica:

Direção: Emmanuel Mouret
Roteiro: Emmanuel Mouret
Elenco: Emmanuel Mouret, Virginie Efira, Anaïs Demoustier, Laurent Stocker
Nacionalidade e lançamento: França, 2016 (20 de outubro de 2016 no Brasil)

Sinopse: O professor Clément deveria estar feliz: ele finalmente conquistou o coração da bela Alicia, uma famosa atriz. Mas quando o relacionamento anda bem, ele encontra Caprice, uma jovem extrovertida que deseja sair com ele, e não se importa em ser a amante de Clément. Enquanto o professor corre o risco de perder a namorada, o melhor amigo dele, Thomas, começa a ficar muito interessado na atriz.

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É comum no cinema vermos obras que giram em torno de pessoas com moral e personalidades questionáveis. Algumas das melhores obras, inclusive, acompanham este tipo de figura. Filmes desse tipo podem escolher privar-se ou não dos julgamentos; às vezes fazem um estudo de personagem. Romance à Francesa, no entanto, não se adentra em nenhum deles: ele gira em torno de personagens irritantes e enfadonhos, num enredo que seria interessante não fossem pelas figuras tão aborrecidas que o movem.

Em Romance à Francesa, acompanhamos a vida de Clément, professor divorciado que leva uma vida monótona e parece alheio ao mundo ao seu redor. Entre os dias que cuida do filho, o mesmo devota seu tempo livre assistindo à peça de Alicia, atriz de quem é fã e acompanha o trabalho – possuindo uma paixão idealizada pela mesma. Por “acasos” do destino (e conveniências de roteiro), Alicia acaba entrando na vida de Clément, surpreendentemente demonstrando uma atração pelo professor, e ambos iniciam um relacionamento. Clément consegue tudo que poderia querer. Porém, quando Caprice, uma jovem insistente, entra em sua vida, as coisas com Alicia ficam confusas.

A comédia romântica (com pitadas desajeitadas de drama) é escrita, dirigida e protagonizada por Emmanuel Mouret (do elogiado A Arte de Amar). Fica dolorosamente evidente a intenção de Mouret de emular Woody Allen – se colocando até mesmo como o protagonista – que é o cara comum, seu “average guy” da vez, mas que “inexplicavelmente” atrai sempre belas mulheres, não sabendo lidar com elas devido ao seu tipo inseguro e neurótico.

A diferença essencial dos protagonistas de Allen em comparação com este de Romance à Francesa é que, mesmo que aqueles fossem inseguros, negativos e “visualmente incompatíveis” em relação às mulheres que se atraiam pelos mesmos, não duvidávamos do sentimento nutrido por elas porque aqueles personagens encontravam, nos tiques e maneirismos de Allen, toda uma peculiaridade que os transformavam em pessoas de fato, que os tornavam críveis e reais (e não importa se eles são meras transposições da personalidade de Allen). Clément, por outro lado, não possui nenhuma característica, nenhum traço de personalidade notável, e, Mouret não é eficiente (como diretor, escritor e ator) em evidenciar se a escolha – de qualquer forma equivocada – é intencional ou não.

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Mouret parece sugerir uma melancolia inerente à Clément, que desde o início parece ter dificuldades em relacionar-se com o filho (que, como ele, parece distante já na divertida primeira cena, onde o protagonista percebe que o filho possa ser talvez “maduro demais” para a idade, preferindo ler um livro ao brincar e ver um filme), e chorando nas repetidas vezes em que assiste à peça de sua musa, a atriz Alicia. O diretor apresenta estes momentos apenas para descartá-los rapidamente, preferindo focar na dinâmica “triângulo amoroso (que não tarda para virar um quarteto)” que já vimos inúmeras vezes neste tipo de produção. E não há problema se isto for feito com competência, mas Mouret aposta suas fichas nas pessoas – e situações – erradas.

Somos obrigados a acompanhar o inexpressivo e tedioso Clément sem saber quem ele é de fato (e se o próprio diretor não está interessado em seu personagem, por que nós deveríamos?), e aceitar que duas belas mulheres se atraem pelo mesmo, que deve ter o maior complexo do “cara legal” do cinema recente; a atriz Alicia, vivida por Virginie Efira, possui uma áurea interessante de mistério em seus motivos para se atrair por um “cara aleatório” – e vale ressaltar que a atuação de Efira é competente -, mas ainda assim é prejudicada pelo roteiro inconsistente; há também Thomas (Laurent Stocker), a exposição e “confito artificial de roteiro” ambulante; chegando finalmente ao último prego no caixão do filme, que infelizmente carrega seu nome no título original: a Caprice de Anaïs Demoustier.

CAPRICE d'Emmanuel Mouret

De início, Caprice parece fazer o tipo “Manic Pixie Dream Girl (algo como “Garota dos Sonhos Masculina”)”, popularizada no cinema por Zooey Deschanel, com suas várias versões da “garota aventureira e meio louca que parece independente mas tem também uma certa vulnerabilidade, e vai mudar para sempre a vida do normalmente chato e “comum” protagonista, que é um cara legal e idealizador”. Porém, não demora para que Caprice se revele uma garota imatura, obcecada, insistente e – se não ficou claro nos adjetivos anteriores – inconsequente. Se Clément é quase um sociopata em sua incapacidade de se comunicar com as pessoas de forma minimamente natural, Caprice seria uma psicopata propriamente dita, já que sua obsessão – e eventualmente perseguição – com o protagonista acaba prejudicando às vidas de todos. Parece que o filme, de início, quer até brincar com esses arquétipos, com a idealização, mas ele nunca insiste em dizer algo de fato. Ele se contenta com a insinuação.

Já que estamos falando de jovens insanos e de comédia romântica francesa, podemos mencionar LoLo – O Filho da Minha Namorada, como exemplo. Naquela obra, pelo menos, há uma espécie de reconhecimento das loucuras de seu personagem, enquanto em Caprice, há até uma idealização da garota por parte de Clément. Sendo uma grande convenção de roteiro desde o início (personagens que moram distantes um do outro se “encontram acidentalmente” com tanta frequência que parecem morar no mesmo bairro), a obra possui até uma certa qualidade técnica – é inegável que as atrizes que fazem parte do triângulo amoroso se esforçam com suas personagens – mas nada que salve a obra de suas figuras aborrecidas.

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Para terminar, Romance à Francesa conta com um final picareta de falsa resolução e seriedade reflexiva, num filme sobre pessoas tolas, com vidas tolas e dilemas tolos, causados por elas mesmas e por imposição manipuladora de  Emmanuel Moureta, que soa inconclusivo como diretor, ator e como escritor, numa falha tentativa de emular Woody Allen.

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