"Westworld" - (2016) - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
Cine(filo)sofia

“Westworld” – (2016)

A série sci-fi de Jonathan Nolan e Lisa Joy foi inspirada no filme de 1973 de Michael Crichton de mesmo nome e está situado em um parque temático chamado Wild West o qual foi criado pelo Dr. Robert Ford (Anthony Hopkins). Neste lugar de fantasia temos acesso a andróides semelhantes aos humanos, onde os hóspedes são encorajados a saciar suas fantasias e desejos. 

A voz que preenche a mente de Dolores o faz de modo questionador, incisivo, persuasivo. Dolores, estática e sentada numa cadeira nua como se estivesse paralisada num sonho sem tempo e espaço, passa a responder o que aquele som lhe perguntava. O dia-a-dia de um andróide no parque é como a vida de um ser humano, so que a cada dia – o vivido – desaparece de sua mente como numa memória perdida de uma lembrança que nunca existiu. No entanto, de acordo com algumas divergências e ocorridos de distintas proporções, algumas das memórias começam a permanecer intactas, neste caso então, os próprios andróides começam a ter suas próprias decisões e escolhas diante dos seus próprios desejos.

Segundo Henri Bergson: “Se eu vejo uma pessoa pela primeira vez: Eu percebo simplesmente. Se torno a encontra-la, eu a reconheço, no sentido de que as circunstância concomitantes da percepção primitiva voltando-me ao espírito, desenham ao redor da imagem atual um quadro que não é o quadro atualmente percebido. Reconhecer seria portanto associar a uma percepção presente as imagens dadas outrora em contigüidade com ela”(1999).

Para este filósofo, a memória está sempre integralmente presente, mas virtualmente, ela vai se atualizando em função das necessidades da ação. E essa é a função do cérebro, ou seja, procurar no nosso passado as lembranças que serviriam para essa ou aquela ação que para executar essa ou aquela ação. Ele seleciona a lembrança útil e afasta as que não se fazem necessárias diante do estímulo recebido. E isso nos leva as memórias puras. Elas, não estão à serviço da ação, elas são um pouco mais caprichosas, mesmo em estado virtual, elas encontram um jeito se atualizar. Elas estão ligadas às memórias afetivas, elas carregam em si um saudosismo da experiência vivida. Elas são especiais pois guardam os momentos especiais, aqueles que não vão acontecer novamente, o perfume de alguém, uma música que te leva àquele dia.

É interessante refletir, pois, a respeito das memórias, principalmente, porque em Westworld, elas têm um papel fundamental no desenrolar da narrativa e do próprio enredo. Os acontecimentos têm seus caminhos delineados, porém, com o desenvolvimento ou evolução – definir um termo específico para tal situação é um pouco complicado – dos andróides, seus criadores, àqueles que se encontram para além do parque temático, podem acabar caindo numa armadilha muito perigosa como consequência das suas essenciais criações.

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