Crítica: Lolo – O Filho da Minha Namorada

Crítica: Lolo – O Filho da Minha Namorada

Lolo – O Filho da Minha Namorada, a nova comédia de Julie Delpy, sofre de um caso de transtorno de personalidade.

Ficha técnica:

Direção: Julie Delpy
Roteiro: Julie Delpy, Eugénie Grandval
Elenco: Julie Delpy, Dany Boon, Vincent Lacoste, Karin Viard
Nacionalidade e lançamento: França, 2016 (25 de agosto de 2016 no Brasil)

Sinopse: De férias no sul da França, Violette, sofisticada parisiense quarentona que trabalha no mundo da moda, encontra Jean-René, um modesto técnico de informática recém-divorciado. Contra todas as probabilidades, acontece uma química de verdade entre eles. No fim do verão, Jean René não perde tempo em se juntar a sua amada em Paris, mas suas diferentes origens sociais e Lolo, o filho dela de 19 anos, não tornarão as coisas tão fáceis.

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Distúrbio de personalidade múltipla

Os créditos iniciais de Lolo – O filho de Minha Namorada, que retrata a personagem principal e seu filho como personagens animados, parecem saídos diretamente de A Pantera cor de Rosa. Divertidos e com um certo charme refletindo os anos 60, eles conferem uma excentricidade proveniente das melhores comédias francesas. É uma pena que este tom não se mantenha, e o que nova comédia de Julie Delpy não consiga se decidir em relação a que tipo de filme pretende ser, transitando entre temas, tons e tipos de humor que não funcionam, apesar de pontuais momentos que provocam o riso. É um filme que sofre de distúrbio de personalidade múltipla.

Violette (Julie Delpy), uma quarentona viciada em trabalho com uma carreira na industria da moda se apaixona por um modesto técnico de computador, Jean-René (Dany Boon). Não demora muito para que Jean vá morar com Violette. O problema é que seu filho, Lolo (Vincent Lacoste), acabou de terminar um namoro, e seu narcisismo Edipiano não permitira que Violette seja dividida com alguém a não ser ele mesmo.

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O filme começa até bem, quando se foca em Violette e na dinâmica com suas amigas, apostando em humor irreverente e diálogos afiados. A Ariane de Karin Viard rouba a cena como a amiga desbocada de Violette. Não tarda, no entanto, para diretora e roteirista Julie Delpy mudar o foco do humor e apostar em uma comédia romântica água com açúcar, adotando um estilo de comédia bem americano de forma desinteressante.

Se Lolo, o filho de Violette se apresenta inicialmente como excêntrico e até engraçado, o roteiro não perde tempo em transformá-lo na figura mais irritante da obra. A cada ato extremo de Lolo contra Jean-René, duvidamos também do bom senso de sua mãe, já que nem do ponto de vista humorístico as peripécias do jovem funcionam. Delpy, em entrevista, disse considerar Lolo um sociopata. então vamos lá:

Precisamos falar sobre Lolo

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O principal problema do filme é como ele lida com o personagem título. Se Lolo é um sociopata, o filme não se esforça para que notemos, e o complexo de Édipo que é até citado no filme é um tema que poderia tornar tudo mais interessante porém é abordado de forma leviana pela cineasta. Não há dúvidas de que Vincent Lacoste seja um bom ator, e talvez o roteiro, que é co-escrito por Eugénie Grandval não seja o maior culpado disso. A questão é que as ações de Lolo não condizem com a maneira que o filme lida com elas. Estamos vendo os planos e exageros maldosos de um menino mimado e problemático, mas a direção e trilha sonora é leve e cômica, causando uma divergência de tons.

A personagem de Delpy, por exemplo: quando, de início, vemos ela e suas amigas fazendo piadas sexuais e falando de forma chula acreditamos que aquelas são pessoas reais pela forma que os diálogos são escritos, mas as oscilações de tons e a incapacidade de Violette em perceber que seu filho tem problemas torna a personagem inverossímil. Quando, em determinados momentos, ela é representada como uma mulher insegura, que grita quando chamada de louca, não vemos camadas, e sim um estereótipo ambulante.

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Delpy, diga-se de passagem, continua carismática e adorável, e em alguns momentos (a maioria nos primeiros 25 minutos de projeção) consegue conferir um pingo de fragilidade e verossimilhança a Violette, auxiliada pelo aspecto de “mulher real” que ela possui, não seguindo o modelo Hollywoodiano. Delpy possui os “quilinhos a mais” e as rugas que só lhe conferem mais charme a medida que o tempo passa. Jean René é interpretado por Dany Boon como um sujeito simples e modesto, e o timing cômico do ator funciona bem quando ele divide cenas com o Lolo de Vincent Lacoste.

Então, Delpy transita entre vários tipos de humor, incluindo até alguns momentos de comédia pastelão. Tipos de humor que, podem até funcionar isoladamente devido ao timing e talento dos próprios atores, mas que, num contexto maior não funcionam muito. Delpy oscila momentos deliciosos de cinismo francês com abordagens tipicamente americanas no sentido “comédia pasteurizada e genérica”. Podemos, inclusive, prever as viradas de trama e seu final, que é previsível, mas recupera aos 45 minutos do segundo tempo a pitada de cinismo que faltava, mas aí já é tarde demais.

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Quando o filme se entrega a comédia pastelão – e funciona

Julie Delpy realiza um filme com Transtorno de Personalidade Múltipla, oscilando entre vários tipos de tons e humores que nem sempre funcionam entre si. Lolo – O Filho da Minha Namorada encontra seus maiores problemas em seu personagem título, que acaba se tornando aborrecido devido a falta de tato de Delpy como diretora. No fim, fica a impressão de que Delpy tentou fazer uma típica comédia francesa ácida e cínica (que ela já mostrou que faz muito bem), mas acabou indo pela mão das comédias românticas genéricas de Hollywoods. Os EUA amoleceram Delpy…

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