Crítica: Anomalisa

Crítica: Anomalisa

Anomalisa foi indicado para melhor animação no Oscar deste ano.

Ficha Técnica:

Direção:  Duke Johnson e Charlie Kaufman
Roteiro:  Charlie Kaufman
Elenco (vozes): David Thewlis, Jennifer Jason Leigh, Tom Noonan
Nacionalidade e lançamento:
EUA, 2015 (28 de janeiro de 2016 no Brasil)

Sinopse: Michael Stone, um renomado escritor, vai para Cincinnati (EUA) para ministrar uma palestra motivacional. Ele se hospeda em um hotel, por uma noite, e lá percebemos que ele se relaciona de uma forma peculiar com as outras pessoas. Mas quando ele conhece Lisa Hesselman há uma quebra de paradigma nessa maneira de lidar com os outros.


anomalisa jantar

[esbarro, bem de leve, em alguns detalhes da trama, se você quer ser 100% surpreendido leia a crítica depois de ver o filme, mas te garanto que dá para seguir em frente no texto sem ter a experiência prejudicada no cinema]

Primeiro: tirem as crianças da sala. O filme tem classificação indicativa de 14 anos e acho que talvez pudesse ser 16. Não se engane pelo fato de ser uma animação. Aqui definitivamente é um filme para adultos. Pela temática e por algumas cenas, de certo modo, impróprias para os pequenos. Só vi cópias legendadas (ainda bem) o que também pode ser um indício do público-alvo desta obra.

Um dos diretores do filme é o Charlie Kaufman. Ele escreveu, dentre outros: Quero ser John Malkovich e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Quem viu aqueles filmes sabe que a especialidade aqui são os mistérios do cérebro e abordados de uma forma bem singular.

Michael Stone aparenta ser um cara normal: bem-sucedido escritor, marido que liga para esposa quando chega no hotel, pai que se preocupa em trazer um presente para filho ao retornar das viagens, gosta de ter um quarto tranquilo na hora de se hospedar, com uma cama confortável e se prepara para uma palestra que ministrará no dia seguinte treinando as próprias falas.


michael stone anomalisa

Mas logo vemos que ele é um homem perturbado pela própria mente. E isso afeta, e muito, a maneira como ele enxerga a todos que o cercam. Atormentado por fantasmas passados, problemas mal resolvidos e uma incompatibilidade social (ironicamente ele escreve sobre técnicas de como tratar bem os funcionários e clientes).

Praticamente todos os personagens têm uma característica peculiar, e que nos causam uma estranheza inicial: eles têm a mesma voz, inclusive as personagens femininas. Tanto que a equipe de dubladores é composta por apenas três membros. Todos excelentes atores diga-se de passagem.

Lisa é a única que não se enquadra nesta forma vocal, consequência do encantamento que Stone sente por ela. O que rende o neologismo: Anomalisa (anomalia + lisa). Lisa, aliás, é uma mulher tímida, insegura e que tem Michael como ídolo.

lisa


A edição torna o filme (principalmente a primeira metade) bem vagaroso. Mas o que ocorre de fato é que muitas cenas são extremamente cotidianas – sem grandes acontecimentos – e mostradas na íntegra. Neste ponto lembra, em certa medida, Boyhood.

O longa mostra Stone utilizando o serviço de quarto, vendo TV ou ainda conversas casuais com taxistas. Apesar de banais, todas as cenas carregam alguma pitada que ajudam a construir aquele personagem ou alguma rima visual análoga com outra parte do filme. Mas o fato é que nada, absolutamente nada, é gratuito. Tudo ajuda a compor um todo e cada fragmento é essencial para entendermos o perfil do protagonista e a mensagem do filme em si.

anomalisa espelho

Há uma falta de “emoção” e valor de entretenimento aqui, mas tudo condizente com a proposta. Apesar de alguns pontos oníricos, o que vemos aqui é a vida como ela é (Nelson Rodrigues mandou lembranças). E nos momentos de humor damos risada por nos identificarmos com aquelas situações. Com certeza já passamos por algumas delas. Desde um taxista com um papo chato até pegar o vizinho em um momento constrangedor.

Um dos momentos altos é uma cena de sexo EXPLÍCITO. Se já é algo raro em animações cenas assim (salvo em Hentais – caso não conheça procure por tua conta e risco) a forma que foi feita, arrisco a dizer, é incomum em filmes de qualquer gênero. É mostrado todo o processo desde o cortejo, ao ato em si e até os momentos posteriores. Se fosse um filme em live action seria necessário um plano sequência grandioso. Estou com dificuldades de lembrar uma cena com teor sexual que seja mais instigante e natural.

anomalisa personagens

Poucas vezes vi um desfecho tão interessante. Foge do clichê e corta em uma momento que você aplaude mentalmente, pois faltam forças para fazê-lo fisicamente de tanto que passamos a refletir sobre o comportamento humano. Importante: fiquem para ver a música nos créditos finais. Ela é uma síntese de toda a obra e a explica de maneira verbal alguns signos que podem passar despercebidos.

Se Divertida Mente é uma monografia de graduação em psicologia, Anomalisa é uma tese de doutorado. A alteridade, desconstrução do homem e o não-ser são temas abordados aqui. O curto espaço-tempo que se passa a narrativa é o locus perfeito para nos dizer muito dizendo pouco.

Sobre o Oscar: Divertida Mente, por ser uma obra de grande valor e ter a chancela Pixar por trás, é o favoritaço da categoria (que fique registrado que sou completamente encantado com tudo ali). Mas O Menino e o Mundo pela arte e pelo tema universal a partir de uma abordagem local também mereceria muito, e não seria injusto ganhar. Contudo, considero, com dor no coração e ao mesmo tempo uma alegria inenarrável, Anomalisa a melhor animação da temporada.

 

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