Crítica: Carol

Crítica: Carol

Carol, um dos favoritos ao Oscar de 2016, e com 5 indicações ao Globo de Ouro, conta a história da relação entre Carol Aird (Cate Blanchett) e Therese Belivet (Rooney Mara). Ambas as mulheres com personalidades e vidas diferentes, até antagônicas entre si, mas com um ponto em comum: as duas insatisfeitas com o próprio destino. Uma intensa atração as une, enquanto Carol tem que lidar com um divórcio e a luta pela guarda da filha e Therese com um processo de amadurecimento e inseguranças profissionais e pessoais. E ambas tem que confrontar o preconceito existente na época (só na época?).

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Dirigido pelo competente Todd Haynes, temos aqui uma aula neste quesito. A câmera colocada, muitas vezes, através de vidros (carros, janelas, espelhos) nos trazem uma imagem fosca e distante da cena. Já em outras dá closes para ressaltar as emoções que pretende transparecer. Percebemos, ainda, um posicionamento que, intencionalmente, não mostra todo o quadro. Recurso este que coaduna com o tom do filme, ao, por exemplo, não mastigar de forma explícita todas as intenções e sentimentos das personagens. E em outras passagens, colocando em foco aquelas situações, já que ao ocultar uma parte a outra fica em evidência.

Cate Blanchett e Rooney Mara nos brindam com belíssimo trabalho. A transformação das personagens é muito mais verossímil graças a essas brilhantes atrizes. Sutileza, sedução, raiva, conflitos internos, tudo é mostrado em tela de forma extremamente convincente. Há até uma dificuldade em se definir qual das duas é a protagonista, e tarefa mais árdua ainda, cravar quem está melhor. O fato é que elas funcionam separadas e principalmente juntas, nos deixando completamente hipnotizados e gerando uma forte empatia no público.

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O roteiro mostra o drama das duas mulheres, mas foco aqui, na transformação daquelas personagens. Vemos uma tensão sexual ser construída de uma forma vigorosa e delicada. Alternância de forças entre as protagonistas e nítida evolução de cada uma delas é um alento diante de tantas figuras rasas e simplórias que vemos por aí. Tudo isso conduzido por uma edição com alguns cortes bruscos – muitas vezes somos jogados no ambiente e temos uma prazerosa dificuldade em nos situar. Há, também, uma mudança no tom do filme da primeira para a segunda metade. Depois de uma hora nos é trazido um ritmo mais acelerado, que me agradou um pouco mais do que o arco anterior. Mas tudo ocorrendo de uma forma harmônica.

Verdade seja dita, há uma leve barriga entre os 25 e 50 minutos, tornado as cenas um pouco arrastadas, mas problema pequeno diante do todo.

A obra se passa nos anos 50 e a composição visual nos permite uma imersão impressionante. É visível o cuidado com os detalhes. Desde o figurino até os objetos em cena. A magnífica trilha, muitas vezes diegética, ajuda a compor todo esse cenário.

Cabe um adendo importante: estamos tendo uma ascensão de mulheres fortes no cinema. O tema já vem sendo discutido, com mais ênfase, desde o ano passado e aqui abrimos mais uma faceta. Depois da Imperatriz Furiosa (Mad Max), Val e Jéssica (Que horas ela Volta?), Rey (Star Wars), temos agora para ingressar este time: Carol e Therese. Mulheres que tentam romper com aquilo a elas imposto e mesmo quando demonstram fraqueza, nada mais é do que demonstração do quão forte elas são. Em Carol há uma metáfora sobre fotografias que vale muito para o crescimento interno das personagens e analogia para este momento que estamos presenciando.

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Nesta época de premiações, especular o que vai acontecer é quase que obrigatório. O filme Carol foi indicado, no Globo de Ouro, para: melhor filme de drama, direção, trilha e duas vezes na categoria de atriz. Imagino que todas devem se repetir no Oscar, com o acréscimo de design de produção, figurino e fotografia. Categorias estas que já foram lembradas no BAFTA. Apesar de O Regresso e Spotlight (que ainda é o meu favorito) estarem tendo destaque, não será surpresa se Carol pintar forte e levar algumas estatuetas para a casa.

[Atualização, 14/01/2016 pós-indicação ao Oscar: o filme foi indicado para trilha, atriz (Cate Blanchett), Roteiro Adaptado, fotografia, figurino e atriz coadjuvante (Rooney Mara). Ficou de fora de melhor filme (ainda cabiam mais duas vagas – a Academia poderia ter colocado Carol lá) e de direção.]

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