*texto também publicado no portal Itunoticias.com.br

Uma revista sobre cinema. Eu quase já havia esquecido como era o gosto de comprar uma revista. O mundo moderno cheio de sites, blogs e textos online foi, aos poucos, acabando com o meu antigo hábito de comprar revistas. Não só de comprar revistas, mas mesmo de entrar em bancas. Não deveria ter perdido o hábito. Fez bem (re)ver revistas, quadrinhos e até mesmo livros de bolso. Faz parte da diversidade de opções do entretenimento atual: nem tudo precisa ser consumido em forma de bits e bytes.
A revista sobre cinema era como algo que eu queria há um bom tempo sem nem saber. Folheei. Matérias sobre filmes em cartaz, filmes ainda não lançados, festivais de cinema. Diferente da informação consumida gratuitamente na tela de cristal líquido, a revista continha assuntos mais aprofundados, que não só me permitiriam apreender mais, como também tornaria mais fácil ler no ônibus ou em outro lugar.
É claro que também é possível se aprofundar em diversos temas na internet. No entanto, especialmente quando se fica tanto tempo voltado para a tela, o papel faz falta. Na revista, também é possível dar atenção somente a propagandas voltadas para o cinema, especificamente. Nada de carros, cervejas e produtos de limpeza.
Ler revistas sobre cinema também é uma forma de contribuir com o mercado. Afinal, informação faz parte do pacote na hora de viver o cinema. Sem informação, não se divulga. Sem divulgação, não se assiste. Sem assistir filmes novos e diferentes, não se progride (tanto do ponto de vista pessoal quanto da produção como um todo).
A revista que comprei vinha com matérias sobre a vida de atores e suas relações com os personagens que viviam. Tudo isso porque não haveria tempo de assistir ao filme antes do “fechamento da edição”. É bom, vez ou outra, ter contato com o ritmo mais lento de uma produção. É como se a revista estivesse para os sites da internet como o cinema está para a TV. Dá tempo de digerir, preparar, pensar e repensar antes de publicar. O cinema é assim: às vezes, o hiato entre a gravação e a exibição chega a ser de quatro anos. A revista precisa ser “fechada” alguns dias antes da publicação.

Nem tudo precisa ser rápido, instantâneo, agora. Pode ser mês que vem. O papel não tem trailer, não tem vídeo, não tem som. Mas tem textura, tem dobra. O filme, que nada mais é do que uma sequência de imagens vistas por um “papel” em constante movimento, precisa de textura, do tecido, dos pontos que se interligam por meio das ações dos personagens. O tecido da costureira e o roteiro do escritor (ou os escritos do roteirista?) são muito parecidos. São redes de ligações e demoram muito tempo para serem feitos.
O trabalho para produzir um tecido, uma revista, um filme, exige lentidão, calma e preparo. A manufatura sempre será mais valiosa que a industrialização.
Em meio à rapidez dos carros, ao fluxo constante das fibras óticas, e à freqüência das ondas no ar, é bom ser lento. Costurar. Ler revista. Ir ao cinema.
