Home Cinema Mundial O Discurso do Rei

Figurino, direção de arte e atuações impecáveis formam a tríade perfeita para conquistar a Academia de Hollywood e ganhar algun(s) Orcar(s). Ter sotaque britânico e ser baseado em fatos reais são fatores que também ajudam.

O Discurso do Rei é um filme rigorosamente impecável, a começar pela ambientação: os tons frios da fotografia caracterizam a Londres da década de 1930 de forma a mostrar uma sociedade fria em sua relação com a realeza; o figurino em tons escuros e sem tons vibrantes só reforçam a sobriedade da família real e dos problemas do protagonista.

O filme de Tom Hooper conta a história do Duque de York, conhecido em sua família como Bertie, filho do Rei George V da Inglaterra, que tem sérios problemas de gagueira e vive momentos de grande mudança na Família Real e na história de seu país: como a morte do pai, a sua coroação como Rei George VI após o abandono do irmão, a iminente Segunda Guerra Mundial contra Hitler, e a busca da cura para seu problema que o impedia de fazer discursos (daí o título do filme).

O “médico” que trata Bertie (poupemo-nos de chamá-lo Vossa Majestade, afinal já somos íntimos do personagem após as horas de projeção) tem métodos pouco ortodoxos mas aos poucos consegue extrair do protagonista toda a complexidade psicológica que faz com que ele tenha dificuldades em falar, e essa relação “médico-paciente” é construída de forma intensa pelos grandes atores Colin Firth e Geoffrey Rush, com direito a cenas e diálogos engraaçadíssimos (principalmente se pensarmos que se trata de um membro da família real inglesa).

Não só Geoffrey Rush e Colin Firth conseguem abranger a humanidade de seus personagens, como Helena Bonham Carter demonstra sua flexibilidade única para papéis muito diferentes que a atriz vive em filmes também absurdamente diferentes. Timothy Spall e Michael Gambon fazem participações pequenas mas mesmo assim se destacam.

Merecem destaque, também, os sons emitidos pelo microfone da época, e a presença do rádio e suas transmissões: a fala de Michael Gambon é icônica e vale também para os dias de hoje: “os reis precisam ser atores”, ou seja, com o surgimento das transmissões radiofônicas (e mais tarde, televisivas), um rei não precisa simplesmente reinar, mas entrar na casa de cada cidadão e se aproximar deles, de maneira a obter o afeto do cidadão por meio de seu carisma, e ao final do terceiro ato, Bertie (já como Rei) cita a pessoalidade de seu discurso (como se estivesse pessoalmente na casa de cada um dos ingleses). Foi devido ao carisma e ao “bom uso do microfone” que a família real da Inglaterra permanece até hoje soberana, mas foi também pela eloquência do discurso diante do microfone que Hitler fez o que todos sabemos com a Alemanha (e sua aparição no filme só fortalece essa idéia).

Apesar de qualidades técnicas e de diversas cenas curiosamente bem enquadradas, O Discurso do Rei muitas vezes soa como um documentário: é frio, calculado e pouco ousado. Há muitos filmes sobre a família real da Inglaterra com direções sóbrias demais… e por mais que a família real seja sóbria e muito formal, faz falta um pouco de paixão por parte dos cineastas. Não fossem as atuações e a equipe técnica, Tom Hooper não teria mais nada no que se apoiar, e teria em suas mãos um documentário que bem poderia fazer parte do “telecurso da BBC sobre a história da família real”.

Considerando que a filha do Rei George VI é ainda hoje a rainha da Inglaterra, a memória à qual o filme remete é ainda fresca na memória do povo, e trata tanto o povo quanto a família real com respeito. Apesar de agradar aos idosos da Academia, O Discurso do Rei é como um típico lorde inglês: frio, distante, formal e muitas vezes mecânico. Se fosse uma bailarina, O Discurso do Rei poderia ser um cisne branco, mas por ser frio e totalmente calculado, não consegue ter a paixão envolvente de um cisne negro.

CIN(ESTREIA)

Chegou aos cinemas o filme "O Segredo dos Diamantes", de Helvécio Ratton (
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